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quinta-feira, 10 de março de 2016

Falta de vontade de viver

Olá,

Primeiro, calma! Não estou suicida. Estou simplesmente completamente exausto. Emocionalmente e racionalmente e fisicamente. Nesta última semana tenho sentido uma falta de vontade de continuar vivendo. De continuar lutando e tentando manter minha cabeça acima do nível da água. Tenho sentido cada vez mais a vontade de simplesmente deixar a correnteza me levar.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Uma noticia boa e Uma ruim

Bem,

Começando pela notícia boa :) Eu tirei minha tornozeleira eletrônica ontem!!! Meio atrasado a notícia mas ela é importante de qualquer jeito. Quando estava tentando conversar com o pessoal do DEPEN para ver o procedimento de retirada acabei mandando uma mensagem para o fale conosco deles reclamando da dificuldade em arrumar informações precisas.

Isto acabou chegando num escalão mais acima que acabou determinando que o pessoa do monitoramente verificasse meu caso e desse um jeito. Resultado, existe uma portaria que diz que é ônus do Juíz pedir a extensão. Na falta da mesma eu não posso ser prejudicada e ficar com a tornozeleira logo eles removeram. O cara me ligou as 5 da tarde perguntando se eu podia ir as 7 da noite para tirar. Claro que sim!!! Logo, estou 1 dia livre da tornozeleira.

A notícia ruim é que o Juíz pegou meu caso para analisar e dar a sentença. Não é exatamente uma notícia ruim afinal isso iria acontecer de qualquer jeito. Entretanto significa que meu caso está andando e logo logo devo saber meu destino.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

sábado, 31 de outubro de 2015

Castigo

Oi,

Desculpem não ter postado nada nos últimos dias, mas tenho estado com a cabeça a mil e não consegui simplesmente parar para escrever algo aqui. Em tese, este post deveria ser curto porque não estou sentindo muita vontade de ficar escrevendo hoje. Entretanto, a maior parte dos outros posts deveriam ser curtos mas quando eu vejo já escrevi um monte.

O título do post é referente ao que eu entendo como é minha situação no momento. Primeiro final de semana com a tornozeleira e ainda dou a sorte de pegar um feriado nacional na segunda feira. 3 dias de molho em casa sem poder colocar o pé para fora. Não é 100% verdade essa afirmação porque existe um raio de erro de 100 metros devido a classe de precisão (ou no caso, de imprecisão) do sensor de GPS da tornozeleira. Entretanto, não vou ficar brincando com essa "folga" que existe no GPS e me arriscar a voltar para a cadeia novamente. Outra coisa que eu descobri é que este sistema de tornozeleira é passivo e não ativo. Isso significa que, como ele fica a maior parte do tempo sem sinal de telefone para enviar os meus dados de localização para o sistema, a tornozeleira armazena onde estou até um certo ponto (o quanto eu não sei) e quando consegue sinal envia de uma vez só todos os dados.

O sistema do outro lado que analisa os dados recebidos que irá dizer se eu cometi alguma infração ou não. Isso significa que mesmo que eu saia de casa não seria imediatamente notificado e preso, mesmo assim isto aconteceria eventualmente. Esta divagação toda é só uma amostra de tudo que tem passado pela minha cabeça nestes últimos dias, e essa é a parte mais tranquila. Voltar a não ter liberdade, mesmo que somente em alguns dias, me trouxe uma série de lembranças da época em que eu estive preso.

Todo mundo me diz que eu devo ficar agradecido de não ter sido preso e que somente estou com uma tornozeleira eletrônica e limitado a ficar em casa (um lugar melhor que a prisão) por alguns dias. Eu entendo, pelo lado racional, completamente o que eles me dizem. Concordo 100% de que a tornozeleira é infinitamente melhor que a cadeia. Entretanto, nenhuma destas pessoas teve que passar um período preso. Realmente é verdade que ficar em casa é muito melhor que ficar na cadeia devido a uma série de coisas como comida, higiene, privacidade, entretenimento (uma das coisas mais difíceis de estar preso é ter todo o tempo do mundo e nada para fazer) e uma série de outras coisas. Ainda assim, a sensação de ter algo preso ao seu tornozelo que irá te rastrear a todas as horas do dia é algo muito opressivo para mim.

Me lembra a sensação que eu tinha toda vez que os agentes penitenciários fechavam a porta da cela (às vezes, sem razão nenhuma aparente e sem nenhuma explicação) e você não sabia quando a porta abriria de novo. Mesmo quando a porta da cela era aberta, o portão da galeria estava fechado. Um lembrete constante de que você não possui liberdade, mesmo quando está "livre" de ficar em sua cela. Mesmo que o portão da galeria estivesse aberto, o portão do corredor de acesso à galeria estaria fechado. Você pode até descer as rampas até o corredor de acesso mas não passaria do portão (fora que os agentes não se sentem a vontade com você perto deste portão e normalmente te mandam subir de volta para a galeria). Mesmo que o portão do corredor fosse aberto para você (para obter atendimento médico, parlatório com os advogados ou etc) o portão principal que dá acesso a área administrativa da prisão estaria fechado. Passando este portão você chegaria em um longo corredor até o portão principal para à área administrativa externa (recepção e etc...) e somente algemado e com um marco-passo você chega aqui. Além disto existe uma porta (dessa vez uma porta comum) e além disto os portões de entrada da cadeia. Um longo caminho de onde você está até a liberdade. Não mais, na maior parte das vezes, que 150 metros. Algo tão perto e ao mesmo tempo tão longe.

Isto é o que eu sinto com a tornozeleira, que estou sendo vigiado de uma certa maneira de tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Sinto a mesma agonia de estar privado de simplesmente fazer qualquer coisa que eu sinta vontade. De ir ao mercado ou ao shopping ou algo assim. Coisas tão banais que não damos a mínima atenção durante nossas vidas. Quando temos estas pequenas liberdades removidas sentimos como estas pequenas coisas se somam para significar algo muito maior.

Novamente digo que a minha parte racional entende perfeitamente a razão de estar com a tornozeleira, como isto tem alguns benefícios para mim e que, mais importante, ao realizar um crime eu serei punido e terei direitos limitados ou removidos. Tal qual uma criança tem ao ser colocada de castigo por seus pais. Emocionalmente falando me sinto oprimido, como se uma sombra pairasse sobre mim e que caso eu faça alguma besteira serei punido em dobro pelo o que eu fiz. Eu sinto medo do estado me vigiando da maneira como ele está me vigiando e fico com receio de cometer algum erro ou deslize bobo que agrave minha situação.

Tenho que tomar cuidado para que a bateria nunca acabe da tornozeleira. Se isso acontecer é uma falta grave, muito mais grave que simplesmente acabar a bateria do celular e não poder mandar uma mensagem no whatsapp ou ver o facebook. Serei colocado novamente na prisão imediatamente, sem que queiram saber a razão pela qual deixei acabar a bateria. Caso eu danifique a tornozeleira o mesmo problema acontece. Não importa se tropecei e bati com a perna em algum lugar, serei colocado novamente na prisão. Não posso nunca me esquecer do horário porque caso chegue em casa após as 23h em um dia de semana poderei ir para a cadeia. Com o agravante de que não sei qual é o horário na tornozeleira e no sistema de controle, logo preciso me prevenir e adotar uma margem de segurança (que estabeleci em 30 min) para minha própria segurança.

Logo, espero que entendam que não é simplesmente ter uma tornozeleira na perna que me faz sentir mal. Existe um conjunto de coisas que me tiram a paz de espirito. Perder a tranquilidade mental, pelo menos para mim, é uma maneira de se perder a liberdade. Para mim, uma das piores coisas em estar preso era justamente não conseguir parar de pensar em tudo que aconteceu. Perder essa calma mental, ter essa peso constante na cabeça é indescritível. 

Como restritiva de direito, a tornozeleira cumpre seu papel além do que o esperado. De todos os textos que eu li sobre a doutrina jurídica todos mencionam como ela é um meio mais humano de manter controle sobre um condenado, ou um réu num processo, com menos impactos financeiros para o estado e menos impactos sociais para a pessoa que a utiliza. Gostaria de saber como eles se sentiriam passando uma temporada na cadeia e posteriormente utilizando esta tornozeleira. Gostaria que todas as pessoas do mundo pudessem passar pela experiência de viver na cadeia, e ser tratado como eu vi tantas pessoas serem tratadas. Ser tratado como eu fui tratado. Tenho certeza que elas diriam que utilizar a tornozeleira é algo muito melhor! Neste momento gostaria que elas então pudessem fazer uso da tornozeleira com todas estes cuidados que eu listei anteriormente. Lembrando-os que qualquer falha da sua parte implica em voltarem, imediatamente, à cadeia. Sim, voltarem para o mesmo lugar do qual tenho certeza que qualquer pessoa diria que faria qualquer coisa para sair.

Ter este aparelho amarrado em mim é um lembrete constante do lugar para onde eu vou e no qual ficarei por anos. Um lembrete urgente de tudo que eu fiz de errado. Equivalente a uma letra escarlate costurado em minha roupa. Uma placa dizendo ao mundo que eu cometi um erro. Uma humilhação constante mesmo quando está escondida por uma calça. Porque mesmo que não esteja aparente para todo o mundo eu sempre sinto ela amarrada à mim. Sempre com receio de que alguém veja e reaja a sua presença. De que os poucos dias de liberdade que eu tenho antes de entrar na cadeia sejam erradicados pelo anúncio da sua presença.

Existem dias que por mais que eu lute contra mim mesmo para que eu não termine tudo aqui e agora eu sinto que esta luta é um pouco falsa. Como se eu me sentisse obrigado por lutar dessa maneira. De que o mais fácil seria desistir. Simplesmente me matar. Simples assim. Usar essa tornozeleira foi uma derrota mental muito grande para mim. Estava convencido de que seria preso na penúltima audiência. Nada me demovia disto. Quando foi necessário marcar uma nova audiência eu, em conjunto com a psicóloga e com os advogados, tive que trabalhar muito para mudar minha cabeça. De que não seria preso na audiência seguinte. De que nada aconteceria. Entretanto essa convicção foi destruída. Esmigalhada pela promotoria pública.

A minha quase prisão que culminou nessa tornozeleira foi um golpe duro na minha psique. Eu estou com medo de que enquanto ela se recupera minha cabeça esteja muito venerável a ter esses pensamentos ruins sobre se matar. Mesmo escrevendo sobre isto agora não consigo ter a mesma resposta do que antes. De dizer para mim mesmo de que se matar não é a resposta, que existem consequências para todos os atos e que eu deva arcar com as minhas. De pensar que existem pessoas que estão me apoiando, apesar de tudo, e que me matar vai ter um impacto enorme nelas. Nos meus pais. Nos meus amigos. Na minha família. Mesmo sabendo disto racionalmente, não sei mais se a lógica envolvida em me matar não é a mais correta. Ela parece ter várias falhas e inconsistências e desvantagens mas me parece ao mesmo tempo ser a melhor saída.

Eu segurei toda a carga emocional e psicológica dos meus pais quando a minha irmã morreu. Fiz isso por 2 anos. Fiz isso da pior maneira possível, reprimindo o que eu sentia dentro de mim e armazenando a tristeza e angústia deles também. Fiz isso até o ponto que eu me esgotei mentalmente e emocionalmente (falei sobre isso no post Medo). Quando achei que tinha feito algo para me recuperar (mudar de área dentro da minha empresa) descobri que a minha decisão foi péssima. Isto foi acumulando e acumulando dentro de mim e acho que devido a isto fiz o que eu fiz. Simplesmente ter machucado alguém inocente.

Após isto continuei anestesiado até o dia em que fui preso no começo deste ano. Desde então, passei por uma série de emoções como raiva, tristeza e etc. Raiva do mundo que no final descobri ser raiva de mim mesmo. Fui solto e procurei ajuda e comecei a melhorar minha cabeça. Consegui, finalmente, após mais de dois anos erguer minha cabeça. Comecei a perceber meus erros ao longo deste tempo todo e o impacto que isso me gerou. Comecei a melhorar a mim mesmo, melhorar a minha visão do mundo, meu controle sobre mim mesmo. Consegui até reverter esse meu medo aterrorizante e paralisante (novamente, ver post Medo) e transformar isto numa esperança de que nada daria errado. Talvez tenha transformado esta esperança numa expectativa irreal. De qualquer maneira, ter minha esperança destruída de maneira tão simples e efetiva me derrubou novamente. Todo o meu trabalho dos últimos meses parece ter ido por ralo abaixo. Não sinto mais vontade de continuar a me esforçar para nada. Para ir a academia, para continuar o regime, o tratamento. Sinto vontade de para com tudo. Para de viver. Terminar a minha própria vida. 

sábado, 24 de outubro de 2015

Bliss

Oi,

Espero que todos estejam bem.

Ontem fiz algo inédito para mim nestes últimos meses. Sai com alguns amigos (sim, ainda sobraram alguns felizmente) e fomos em um barzinho. Não havia saído de casa para fazer algo assim desde que entrei em liberdade provisória. Simplesmente não me sentia a vontade de sair e de repente dar de cara com alguém que conhecia e que me odeia agora. Não sabia como seria a reação desta pessoa. Poderia passar simplesmente de fazer cara feia a fazer algum escândalo. Logo, mais pelo não que pelo sim, simplesmente não saia de casa.

Não tinha segurança nenhuma, minha auto estima estava bem baixa, e caso acontecesse algo assim não sabia como eu reagiria a tudo. Ás vezes tinha a impressão de que eu ficaria puto caso a pessoa falasse algo e temia que eu acabasse envolvido em alguma briga. Ás vezes tinha a impressão de que se a pessoa falasse algo eu simplesmente começaria a chorar histericamente e desabaria.

Entretanto, de uma maneira geral, todas as essas questões de auto estima tem ficado melhores (conforme eu já havia comentado anteriormente) e me sinto melhor em relação a mim mesmo. Claro, ainda percebo que minha auto confiança e auto estima estão baixos mas pelo menos consigo reconhecer isto agora. Este simples fato, de conseguir me analisar e reconhecer isto, aliado com o fato de que tenho tentando "me resolver" (no sentido, conversar mais comigo mesmo, refletir mais sobre mim mesmo) tem me ajudado e navegar melhor por estas incertezas. Ainda não é perfeito esse gerenciamento mas é muito melhor do que ele era antigamente.

Então me senti confiante de ir no barzinho com essas minhas amigas para espairecer a cabeça um pouco. Com a audiência chegando agora no dia 27 eu senti que eu precisava fazer algo para aliviar a tensão um pouco. Logo, tomar umas cervejas e bater um pouco de papo sobre qualquer besteira me pareceu uma ótima solução. O encontro foi bem legal, cheguei lá em torno das 18h30m e fiquei até 23h30m. Nunca fui muito de sair para ir em algum bar, sempre preferi fazer algo em casa mesmo. Logo, nunca fui de ficar muito tempo no bar mas só essas poucas horas que eu fiquei já me levantaram o ânimo de uma maneira impressionante.  Fiquei muito feliz de poder ter feito algo normal.

Entretanto, percebi após pensar um pouco que um dos maiores motivadores para ter ido ao bar foi a questão da audiência do dia 27. Apesar de ter uma mísera chance de 1 ou 2% de ir preso novamente nesta audiência é somente nisso que eu consigo pensar ás vezes. Tenho conseguido gerenciar melhor essa ansiedade e expectativas descomunais em relação a um risco tão pequeno mas nem sempre consigo fazer um controle adequado. Logo, essa ida ao bar me pareceu uma certa despedida aos meus amigos. Uma última chance de ver eles antes de ser preso por vários anos.

Percebi isso porque eu havia tentando marcar um churrasco com um outro grupo de amigos para este sábado que infelizmente não rolou. Quando eles me avisaram, via e-mail, que não ia rolar, porque tinham outros compromissos, eu respondi dizendo que entendia e que poderíamos marcar para o próximo final de semana; internamente, entretanto, eu fiquei bem mal e triste e principalmente angustiado. Esses meus amigos vão depor a meu favor, como testemunhas de carácter, na terça feira agora e somente vou vê-los nesse dia. Senti que essa minha angústia era devido a achar que a última vez que eu veria eles seria na audiência a medida que eu fosse algemado e colocado numa viatura para ser despachado para algum presídio. Bizarro, eu sei, mas era como eu me sentia.

Uma surpresa inesperada nessa ida ao bar foi que uma pessoa que eu conhecia anteriormente, mas não chamava de amigo e sim de colega de trabalho, apareceu junto. Esse cara havia me mandado umas mensagens após eu ter sido solto e elas fizeram um bem enorme para mim. Ele me falou que não queria saber o que havia acontecido e nem se era verdade ou não. Ele estava interessado em saber como eu estava, se eu precisava de ajuda ou de alguém para conversar que era para contar com ele. Que ele estava com a cabeça aberta, não queria fazer julgamento de ninguém mas que gostava muito de mim e por isso achava que eu merecia pelo menos uma chance. Nunca iria esperar isso de alguém como ele. Nós sempre se demos bem no trabalho, inclusive até em alguns churrasco da empresa e etc, mas como eu disse acho que nunca poderia ter chamado ele de amigo. Entretanto, aqui estava ele, alguém que mal me conhecia me dando um apoio fundamental para que eu soubesse que não estava sozinho, que existiam pessoas que queriam me ajudar.

Teve pessoas que eu considerava mais que amigos, que eu considerava como se fossem irmãos, que me abandonaram. Algumas destas pessoas que inclusive mandaram avisar, via amigos em comum que eu ainda tenho, que eu estava morto para eles. Destas pessoas eu esperava apoio e não tive. Acho que isto, mais até dos problemas que estou tendo com meu irmão de verdade,  foi um dos principais fatores que me quebrou ao meio. Minha auto confiança e minha auto estima, após ser rejeitado por estas pessoas, que eu considerava tanto, simplesmente estilhaçaram. Pensava que eu deveria realmente ser um monstro, um merda, para que até pessoas que eu conhecia a mais de 10 anos, pessoas que eu chamava de irmão e não de maneira leviana, estarem me abandonado. No entanto, aqui estava um exemplo de um cara que eu nem considerava meu amigo me dando uma super força, um apoio que foi fundamental. São nestas surpresas agradáveis que eu tento me focar e não nas desagradáveis. Pena que nem sempre isso é fácil de fazer.

Mais felizmente esse cara foi ontem no bar e pudemos trocar algumas palavras rápidas. Percebi que ele, assim como já havia dito anteriormente, não queria saber dos detalhes do que havia acontecido e nem nada do tipo. Percebi que ele estava realmente interessado em saber como eu tava, se estava procurando ajuda, se estava tomando remédios, se eu estava bem de verdade. Falou novamente que qualquer coisa era para eu dar um toque nele, no que ele pudesse ajudar ele tentaria. Se fosse bater um papo, tomar uma cerveja ou o que fosse. Cara, realmente existem pessoas boas no mundo. Estes meus poucos amigos que restaram mais essas surpresas que eu tenho de algumas pessoas me deixam muito feliz. Não consigo expressar em palavras como é poder escutar isso de uma pessoa. Saber que a pessoa genuinamente está interessado no teu bem estar, que ela não concorda com o que você fez mas entende que todos somos passíveis de erros e que temos que tentar sempre lidar com as consequências dos erros da melhor maneira possível. Novamente, cara, isso é fantástico!


PS:


O título deste post ia ser Incerteza. Incerteza porque quando eu comecei a escrever ia ser sobre que apesar de ter saído na sexta-feira e ter ficado melhor de ânimo hoje eu estava novamente angustiado e incerto sobre o meu futuro. Ia falar novamente que eu estava pirando e me sentindo triste e ansioso e uma série de outras coisas. Novamente, ao começar a escrever o post e escolhendo falar da parte boa (que foi ter saído) e me foquei mais nessa parte do que na parte ruim. Ter relembrado sobre ontem à noite e sobre essa pessoa que eu encontrei me fizeram, temporariamente, esquecer das coisas ruins que eu estava sentindo.

Após escrever o post inteiro acima, parei e reli ele algumas vezes. Tenho mania de fazer isso com todos os posts porque tento imaginar como uma pessoa estranha deve se sentir e pensar ao ler tudo isso que eu estou escrevendo. A medida que eu fui lendo e relendo eu percebi que eu estava muito feliz em poder contar tudo isso que eu contei. Muito feliz por ter passado por essa experiência. Sim, ainda estava me sentindo triste, angustiado, inseguro, incerto sobre o futuro. Entretanto, a felicidade e alegria que eu sinto é muito maior. Então, ao invés de focar na parte ruim eu vou focar na parte boa do que eu estou sentindo.

Entretanto, isso não significa que eu vou fingir que a parte ruim não está lá. Não vou enterrar esses meus sentimentos que nem eu sempre fiz ao longo da minha vida. Tenho que reconhecer que eles estão aqui dentro de mim e que eu preciso lidar com eles. Por isso que eu escrevi esse PS, meio longo, para dizer que além da alegria que eu estou sentindo também tem sentimentos ruins. Eles estão aqui e estão sendo gerenciados por mim. A existência deles dentro da minha cabeça me obrigam a honrá-los tanto quanto os sentimentos bons.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Medo

Hoje foi e tem sido um dia difícil....

Fui para a academia mas não sentia vontade de fazer nada, muito além da mera preguiça que me acomete só de pensar em ir fazer exercícios. Pela manhã toda eu sentia um senso de querer fazer nada, de me esconder de tudo e todos. Achar um buraco no chão e me deitar lá (vejam, nada a ver com cometer suicídio em si, somente a vontade de desaparecer) e deixar que o mundo continuasse o seu caminho enquanto eu ficava para trás...

Já senti isso antes, quando minha irmã faleceu. Chegou em um ponto de tristeza tão grande e de stress tão grande de cuidar dos meus pais (que obviamente estavam muito abalados) em que o meu cérebro simplesmente desligou as minhas emoções. Eu me senti anestesiado, indiferente a tudo que estava acontecendo á minha volta e comigo. Não sentia vontade de me matar nesse período, apesar de ter pensado nisso antes de acontecer essa anestesia geral, mas também não sentia vontade de continuar a viver. Assim como hoje pela manhã, sentia vontade de simplesmente deixar o mundo seguir o seu caminho enquanto eu ficava para trás. Eu pensava que seria ótima achar um lugar remoto e isolado, onde eu não precisasse interagir com ninguém ou com nada. Um lugar onde eu pudesse simplesmente sentar e ficar quieto.

Esse mesmo sentimento me invadiu hoje de manhã e por mais cômico que pareça foi um estranho completo que acabou me tirando desse estado. Estava fazendo exercício ao lado dele, no elíptico, e ele começou a puxar papo comigo. Sou uma pessoa bem introvertida e nunca faria isso por iniciativa própria então acho muito estranho quando vejo alguém tomando essa atitude. Esse sentimento de estranheza é ainda maior quando eu sou o foco dessa expansão extrovertida de alguém.

Acabamos batendo papo sobre perder peso (ele também está na luta para emagrecer) e como todo gordo existem certas histórias que somente tem graça se você é (ou já foi) gordo. Ficamos batendo papo por uns 15 minutos e essa conversa, totalmente aleatória, acabou melhorando meu espírito. Demos risada sobre diversas situações em que você tende a se meter quando é obeso e sobre vários outros assuntos relacionados.

Dai imagino que vocês pensem...se ele está melhor porque o título do post é Medo?

Bem, o título é medo porque eu ia começar contando sobre como eu estava me sentindo ao logar no blogger para escrever. Entretanto, me veio na cabeça essa história sobre hoje de manhã e não consegui me conter de não compartilhar ela. Engraçado, estava pensando agora.... sou uma pessoa introvertida por natureza, conforme mencionei anteriormente, mas aqui estou eu escrevendo sobre como eu me sinto para pessoas que nunca vi na vida. Inclusive, vi agora a pouco que houveram acesso deste blog da Rússia. Vai entender o que um Russo/a estava procurando para cair aqui....

A medida que fui contando a história sobre hoje de manhã fui me acalmando. Com isso meu medo foi diminuindo até que, apesar de continuar sentindo esse medo e ansiedade agora, o sentimento chegou em um nível controlável.  A pouco mais de 15 minutos atrás comecei a sentir um medo e ansiedade de uma maneira que eu não sentia a muito tempo. Meu coração começou a bater mais rápido e minha respiração começou a ficar mais trabalhosa e rápida. Senti minha cabeça cada vez mais leve e comecei a sentir náuseas, como se fosse passar mal. Tinha uma sensação de querer fugir de onde estava (meu quarto), de simplesmente abrir a porta da rua da minha casa e sair correndo. Não sabia para onde eu tinha que ir e nem o porque, mas eu queria sair de onde eu estava de uma maneira desesperada. Um sentimento de que algo ruim estava para acontecer iminentemente e que eu não sobreviveria se não fugisse imediatamente.

Por mais engraçado que seja, quando eu senti isso e loguei para postar sobre isso essas sensações ficaram mais fortes ou talvez mais urgentes. Entretanto, quando eu fui escrever, quando eu achei que o meu coração ia pular para fora do meu peito ou que eu iria enfartar, eu lembrei dessa pessoa de hoje de manhã e comecei a dar risada. Dar risada da situação (do introvertido sendo obrigado a ser levemente extrovertido forçadamente) como um todo e como ela me fez bem.  Essa lembrança, e algumas risadas por lembrar disso, me fizeram ficar mais calmo até que posso dizer que agora estou novamente tranquilo. Tranquilo daquele jeito né? Nervoso? Sim! Ansioso? Sim! Com medo? Sim! Gerenciáveis? Também sim!

Estava lembrando aqui também, a única outra vez em que eu senti esses sintomas, e não com esse sentimento de querer fugir, foi quando eu fui transferido para a segunda prisão que eu fiquei. Quando eu cheguei lá um dos agentes me perguntou sobre o que eu tinha feito e eu, idiota e ingênuo, respondi. Ele começou a me xingar imediatamente e começou a me dar ombradas. Assim que eu sai do local onde era feito o cadastro e fui para onde eu iria receber as roupas (laranjas, bem estilo seleção holandesa) ele contou para todos os outros agentes e alguns dos outros presos que estavam por perto no pátio (separados de onde eu estava por uma grade).

Todos essas pessoas começaram a me xingar, me ameaçar de morte e várias outras coisas. As que tinham acesso a mim toda hora vinham me agredir fisicamente de alguma forma (seja via ombradas, joelhadas nas pernas e alguns tapas). Fiquei mais de 40 minutos de pé, olhando para essa grade que me separava de alguns dos presos, enquanto eles ficavam do outro lado chutando a grade e me xingando. Fiquei esses 40 minutos algemadas, sem poder me mexer porque caso eu tentasse mudar o meu pé de apoio, algum agente vinha e me agredia. Esses mesmos 40 minutos debaixo de um sol forte, sem poder levantar as mãos até o meu rosto para me proteger. Este mesmo tempo sendo agredido verbalmente, sofrendo uma pressão psicológica intensa.

Neste momento sentia os mesmos sintomas físicos que eu descrevi mais acima. Interessante, entretanto, que não sentia a vontade de fugir. Talvez porque soubesse que isso não era possível por mais que eu quisesse. Afinal, teria que de algum modo passar por mais de 10 agentes, pular um portão enorme, fugir dos cachorros de guarda (que são enormes), não levar nenhum tiro dos guardas nas torres de vigia para só então chegar no estacionamento do presídio. Dali, teria que andar uns 4 kilômetros via estrada de chão para chegar a uma rodovia de onde poderia voltar para a cidade. Tudo isso algemado e pesando mais de 160 kg. Totalmente inviável.

Estes sentimentos entretanto somente pararam quando eles finalmente me levaram para a cela onde eu iria ficar. Para fazer isso era necessário passar por um corredor onde ficava a enfermaria. Após este corredor havia um portão fechado e o conjunto de celas onde eu iria ficar era após este portão. Neste corredor haviam vários presos que estavam aguardando atendimento médico. Todos eles haviam visto o que tinha acontecido comigo e ouvido qual era meu crime. Até então, eles se limitavam a gritar xingamentos de longe, já que este corredor ficava em torno de 40 metros longe. A chance deles de fazer algo a mais somente se apresentou nessa hora.

Vejam, existe uma norma de que os agentes penitenciários são responsáveis pela integridade física do preso e devem zelar por ela. Isso significaria impedir que alguma pessoa me agredisse. No mínimo irônico, sendo que eles mesmo estavam me agredindo verbalmente continuamente. Entretanto, o ponto máximo da história foi que, ao chegar neste corredor, os agentes me falaram que a minha cela estava além do portão ao final do corredor. Eles, no entanto, não estavam com a chave do portão. Logo, eu teria que atravessar sozinho o corredor, cheio de outros presos me xingando e ameaçando de morte, enquanto eles voltariam até a estação deles para buscar a chave.

Nesse momento, eu falei que não iria atravessar sozinho, que iria esperar eles voltarem. Tinha certeza absoluta que se eu tentasse atravessar sozinho aquele corredor os outros presos iriam me agredir e que não iriam parar até que eu estivesse morto. Os agentes simplesmente me falaram que eu não tinha escolha alguma, que caso eu não atravesse eles iriam me levar até o pátio (onde eu estava parado na frente, com cerca de 100 presos do outro lado da grade) e deixar que eles tirassem satisfação comigo.

Minha cabeça, neste momento, decidiu duas coisas. A primeira que era melhor arriscar 10 a 12 presos batendo em mim do que 100. Mais importante, tive a certeza absoluta de que eu iria morrer. Neste momento senti uma anestesia parecida com a que eu senti de manhã mas, ao contrária daquela que, para mim, é relacionada a depressão, esta anestesia que senti ao cruzar o corredor foi de desistência.

Eu desisti da minha vida naquele momento. Eu tinha certeza da minha morte. Eu simplesmente desliguei minha cabeça de alguma forma. Não sentia mais medo, nem ansiedade. Meu coração batia calmamente. Minha respiração era constante. Eu andei aqueles 20 metros de corredor totalmente calmo. Sabia que não iria chegar do outro lado, não vivo pelo menos. Esse era o fim. Não sei se alguém já esteve numa situação onde se teve a plena certeza de que você iria morrer. O momento que você tem a certeza em si é de uma serenidade incrível. Pelo menos para mim foi. O problema é o momento anterior e o momento posterior.

O anterior eu já expliquei, mas agora vem o posterior. Ao chegar ao fim do corredor, vivo obviamente, eu olhei para trás e vi os agentes dando risada. Logo em seguida eles vieram andando e chegaram até o portão. Eu não havia reparado, mas havia um outro agente do outro lado da grade (em um outro corredor) e ele era o cara que tinha a chave. Nenhum dos agentes que fica em contato direto com o preso tem o molho de chaves de nada importante (como das celas ou portão), porque pode ser que o preso consiga roubar essa chave. Um outro agente, que fica fora de contato com os presos, anda ao lado, mas separado por uma grade, e então entrega a chave para abrir o portão e posteriormente a cela. Esse agente que fica com a chave, fica nesse corredor marcado pelo quadrado vermelho:

 

Esse lugar era onde eu estava, o portão que separava essa ala de celas fica logo antes dessa cela. Esta foto foi quando isto foi inaugurado acredito eu. O lugar agora está bem mais sujo e existe um outro portão cerca de 6 celas para baixo nessa "rua".

Outro detalhe que eu não havia percebido. Todos os presos que estavam no corredor estavam algemados por uma mão em um corrimão preso na parede. Não existia como eles me alcançarem, desde que eu andasse o mais perto possível da grade do lado direito. Logo, eu não estava, em nenhum momento, sob nenhum risco de ser espancado e muito menos de morrer. Claro que estes detalhes eu somente percebi depois de tudo o que eu relatei para vocês. Imaginem então alguém que simplesmente desistiu de sua vida perceber que a mesma não estava em perigo.

Eu sentia ódio dos agentes por terem feito isso comigo, queria enfiar a mão na cara deles mesmo que eu fosse jogado na solitária. Eu sentia vontade de desabar e começar a chorar porque a pressão psicológica estava muito grande. Eu tenho a impressão que eu quase surtei definitivamente neste período. Acho que essa foi a grande chance na minha vida de finalmente perder a cabeça e ficar louco para sempre. Me pergunto ás vezes se não deixei essa oportunidade passar...