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domingo, 10 de abril de 2016

Uma chance | One Chance

As usual, english version at the bottom.

Uma chance. Quantas vezes isto é o que pedimos para os outros quando tentamos explicar algo? Às vezes o assunto em si não é algo polêmico mas nos encontramos com várias pessoas no dia a dia que não tem a capacidade de demonstrar paciência e educação para ouvir. Mesmo que ouçam estas mesmas pessoas tem uma tendência de não serem capazes de ter mente aberta em relação ao que está sendo dito. Muito menos de contestar os seus conhecimentos e opiniões e crenças de maneira a poder, talvez, evoluir seu pensamento.

domingo, 25 de outubro de 2015

Bliss Redux

Oi,

Pelo nome do post já dá para entender que é novamente sobre algo inesperado mas que foi legal. Eu falei no último post, que tinha o nome de Bliss, sobre como foi legal dar uma saída na sexta-feira e ir para um barzinho com algumas amigas. Foi algo totalmente inesperado e acho que por isso a sensação de que foi tão bacana é tão forte.

Ontem, no sábado, aconteceu algo bem parecido! Um amigo meu, que inclusive vai testemunhar a meu favor no dia 27, me mandou uma mensagem me convidando para ir comer uma pizza com ele e a esposa dele. Somos amigos já faz algum tempo, mais de 10 anos, e sempre me dei bem tanto com ele quanto a esposa dele. Ele já havia vindo aqui em casa duas vezes desde que eu saí da cadeia mas a esposa dela ainda não tinha encontrado. Já havia falado com ela via telefone algumas vezes e sabia que ela estava tranquila em relação a mim. Com isso quero dizer que não estava me rejeitando ou surtando em relação ao que eu fiz. Claro que isso não quer dizer que ela concorda com nada do que eu fiz, mas ela entende o meu contexto e me apoia bastante para ir na psicóloga e no psiquiatra. Logo, ver ela pela primeira vez em alguns meses foi bem legal.

Se divertimos bastante, que nem antigamente (antes de ter todos estes problemas). Tomamos um vinho, comemos pizza e ficamos batendo papo sobre um monte de coisas, desde filmes até livros e etc. Claro, falamos também sobre a minha situação porque ela é advogada (especializada em trabalhista) mas de uma maneira bem legal. Gosto muito de ambos e respeito eles também. São pessoas bem legais e sérias, que ponderam bastante as coisas então sempre gostei de ouvir as opiniões deles sobre tudo. Agora, com a minha situação em um caos total, prezo bastante a opinião deles sobre como as coisas estão, em como eles veêm meu futuro, o julgamento e etc. No geral, posso dizer que foi uma experiência muito agradável. Chegamos lá por volta das 20h30m e saímos era quase 1h da manhã! Pizzaria que fomos é bem legal também, nunca havia ido lá e além de a comida ser muito gostosa o atendimento é 10! Em resumo, uma noite muito bacana mesmo!

Para quem estava a alguns dias tendo crises fortes de ansiedade e pavor, ver post Medo, ter logo em seguida ter tido dias tão legais é desconcertantes. Digo isto porque nunca imaginaria que eu teria a chance de sair dois dias seguidos sendo convidados por pessoas que eu gosto de uma maneira totalmente aleatória. Claro, imagino que estes meus amigos aproveitaram a chance de que iam sair e lembraram de mim (e sabendo de como eu devo estar me sentindo nessa semana que antecede o dia 27) e resolveram me convidar. Essas surpresas, por serem algo que eu realmente não esperava, me fizeram tão bem quanto a experiência de sair nos dois dias me fizeram.

Estava realmente me sentindo mal nessa semana e ter tido a chance, do nada, de espairecer e dar risada com algumas pessoas que eu adoro é incrível. Acho que estava me sentindo um pouco abandonado pelo mundo em geral (eu e as minhas piras de rejeição). Ter tido essas duas surpresas concomitantes foi além do que eu poderia imaginar de algo bom acontecendo comigo.  Me acalmaram a mente e principalmente me ajudaram a diminuir um pouco a ansiedade. Ela ainda está aqui, ainda sinto vontade de subir pelas paredes e arrancar os cabelos, mas sei que existem pessoas que se importam comigo e que estão por ai quando eu precisar.

Isto é algo que eu deveria saber já. Sim, várias pessoas sumiram da minha vida mas estas poucas boas pessoas ficaram. Não deveria duvidar de que elas estão me apoiando de verdade ou de que elas se importam mesmo comigo. Minha cabeça no entanto me faz ter algumas piras sobre como todo o mundo me abandonou e que eu estou sozinho para enfrentar tudo que está vindo. Acho que isso é muito derivado do fato de que eu me isolei de todos (minha família, meus amigos) por anos a fio guardando um segredo dentro de mim o qual não poderia contar para ninguém. Nunca pude confiar 100% em alguém, não por achar que essa pessoa era indigna de confiança mas porque eu acreditava que nunca poderia revelar esse segredo para ninguém.

É baseado nessa crença que eu me impedia de ir buscar ajuda profissional num psicólogo ou psiquiatra. Simplesmente não me sentia a vontade de relatar a ninguém o que eu sentia e pensava. Muito mais que isso não me sentia a vontade de relatar o que eu era (e sou ainda) e como isso afetou quem eu sou. Se eu tivesse tido a maturidade para ter dado esse passo antes talvez minha vida não estaria do jeito que está hoje. Possivelmente eu não teria ido para a prisão e não estaria no meu caminho de ir para lá novamente. Este é um dos maiores pontos positivos da minha prisão este ano, acredito eu.

Não precisei contar para ninguém meu segredo, ele foi escancarado a força para todo o mundo ver. Meu maior medo, que era ser descoberto pelo o que eu sou, foi concretizado. Da noite para o dia minha vida inteira caiu em pedaços. Perdi meu emprego, vários amigos e algumas pessoas da minha família. No entanto, isso resultou em várias coisas boas também. Pude ser honesto com as pessoas que eu amo e recebi apoio delas de volta. Pude procurar ajuda de uma maneira consciente. Tem dias que eu acho que não quero mais ir para a terapia porque descubro cada vez mais que eu não me conheço. Descubro coisas que não acho boas em relação a mim mesmo. Acho que não vou ter a força de vontade de mudar essas coisas ruins. Entretanto, persisto em continuar indo lá na terapia. Principalmente porque consigo perceber várias situações, algumas delas relatadas aqui em posts antigos, onde tive uma reação muito melhor do que teria antes de ser preso. Ver que todo esse esforço dá resultado me anima muito. Me da ânimo para continuar tentando e me esforçando.

Em resumo, o que eu mais percebo desta minha experiência toda deste ano é:

Existem lições que devem ser aprendidas do jeito difícil.

Como eu disse anteriormente eu poderia ter evitado muito dos meus problemas deste ano. Se eu tivesse sido um pouco mais aberto com os outros, um pouco mais maduro talvez eu não precisasse ter perdido tudo o que eu perdi. Talvez eu não precisasse perder alguns anos da minha vida na cadeia. A realidade, no entanto, é esta. Posso lamentar todas as chances que eu tive e não aproveitei e elas não irão voltar. No entanto, eu posso, e acredito que devo, aproveitar todas as chances que eu tenho na minha frente agora. Tentar fazer o melhor delas. Existe uma expressão no Japão, Ganbare!

 

Ela quer dizer, Se Esforçe! ou Força! ou Dê o melhor de si!  Basicamente, isto quer dizer que no final do dia os resultados que você vai ter em tudo dependem de você. Do seu esforço, da sua garra. Isso para mim tem tido um significado profundo. Somente irei melhorar se eu quiser melhorar. Somente irei me tornar uma pessoa melhor se eu quiser ser melhor. Depende do meu esforço e, claro, como diriam os Beatles: "With a little help from my friends!" .  A ajuda dos amigos tem acontecido e muito esses últimos dias!!!! 

sábado, 24 de outubro de 2015

Bliss

Oi,

Espero que todos estejam bem.

Ontem fiz algo inédito para mim nestes últimos meses. Sai com alguns amigos (sim, ainda sobraram alguns felizmente) e fomos em um barzinho. Não havia saído de casa para fazer algo assim desde que entrei em liberdade provisória. Simplesmente não me sentia a vontade de sair e de repente dar de cara com alguém que conhecia e que me odeia agora. Não sabia como seria a reação desta pessoa. Poderia passar simplesmente de fazer cara feia a fazer algum escândalo. Logo, mais pelo não que pelo sim, simplesmente não saia de casa.

Não tinha segurança nenhuma, minha auto estima estava bem baixa, e caso acontecesse algo assim não sabia como eu reagiria a tudo. Ás vezes tinha a impressão de que eu ficaria puto caso a pessoa falasse algo e temia que eu acabasse envolvido em alguma briga. Ás vezes tinha a impressão de que se a pessoa falasse algo eu simplesmente começaria a chorar histericamente e desabaria.

Entretanto, de uma maneira geral, todas as essas questões de auto estima tem ficado melhores (conforme eu já havia comentado anteriormente) e me sinto melhor em relação a mim mesmo. Claro, ainda percebo que minha auto confiança e auto estima estão baixos mas pelo menos consigo reconhecer isto agora. Este simples fato, de conseguir me analisar e reconhecer isto, aliado com o fato de que tenho tentando "me resolver" (no sentido, conversar mais comigo mesmo, refletir mais sobre mim mesmo) tem me ajudado e navegar melhor por estas incertezas. Ainda não é perfeito esse gerenciamento mas é muito melhor do que ele era antigamente.

Então me senti confiante de ir no barzinho com essas minhas amigas para espairecer a cabeça um pouco. Com a audiência chegando agora no dia 27 eu senti que eu precisava fazer algo para aliviar a tensão um pouco. Logo, tomar umas cervejas e bater um pouco de papo sobre qualquer besteira me pareceu uma ótima solução. O encontro foi bem legal, cheguei lá em torno das 18h30m e fiquei até 23h30m. Nunca fui muito de sair para ir em algum bar, sempre preferi fazer algo em casa mesmo. Logo, nunca fui de ficar muito tempo no bar mas só essas poucas horas que eu fiquei já me levantaram o ânimo de uma maneira impressionante.  Fiquei muito feliz de poder ter feito algo normal.

Entretanto, percebi após pensar um pouco que um dos maiores motivadores para ter ido ao bar foi a questão da audiência do dia 27. Apesar de ter uma mísera chance de 1 ou 2% de ir preso novamente nesta audiência é somente nisso que eu consigo pensar ás vezes. Tenho conseguido gerenciar melhor essa ansiedade e expectativas descomunais em relação a um risco tão pequeno mas nem sempre consigo fazer um controle adequado. Logo, essa ida ao bar me pareceu uma certa despedida aos meus amigos. Uma última chance de ver eles antes de ser preso por vários anos.

Percebi isso porque eu havia tentando marcar um churrasco com um outro grupo de amigos para este sábado que infelizmente não rolou. Quando eles me avisaram, via e-mail, que não ia rolar, porque tinham outros compromissos, eu respondi dizendo que entendia e que poderíamos marcar para o próximo final de semana; internamente, entretanto, eu fiquei bem mal e triste e principalmente angustiado. Esses meus amigos vão depor a meu favor, como testemunhas de carácter, na terça feira agora e somente vou vê-los nesse dia. Senti que essa minha angústia era devido a achar que a última vez que eu veria eles seria na audiência a medida que eu fosse algemado e colocado numa viatura para ser despachado para algum presídio. Bizarro, eu sei, mas era como eu me sentia.

Uma surpresa inesperada nessa ida ao bar foi que uma pessoa que eu conhecia anteriormente, mas não chamava de amigo e sim de colega de trabalho, apareceu junto. Esse cara havia me mandado umas mensagens após eu ter sido solto e elas fizeram um bem enorme para mim. Ele me falou que não queria saber o que havia acontecido e nem se era verdade ou não. Ele estava interessado em saber como eu estava, se eu precisava de ajuda ou de alguém para conversar que era para contar com ele. Que ele estava com a cabeça aberta, não queria fazer julgamento de ninguém mas que gostava muito de mim e por isso achava que eu merecia pelo menos uma chance. Nunca iria esperar isso de alguém como ele. Nós sempre se demos bem no trabalho, inclusive até em alguns churrasco da empresa e etc, mas como eu disse acho que nunca poderia ter chamado ele de amigo. Entretanto, aqui estava ele, alguém que mal me conhecia me dando um apoio fundamental para que eu soubesse que não estava sozinho, que existiam pessoas que queriam me ajudar.

Teve pessoas que eu considerava mais que amigos, que eu considerava como se fossem irmãos, que me abandonaram. Algumas destas pessoas que inclusive mandaram avisar, via amigos em comum que eu ainda tenho, que eu estava morto para eles. Destas pessoas eu esperava apoio e não tive. Acho que isto, mais até dos problemas que estou tendo com meu irmão de verdade,  foi um dos principais fatores que me quebrou ao meio. Minha auto confiança e minha auto estima, após ser rejeitado por estas pessoas, que eu considerava tanto, simplesmente estilhaçaram. Pensava que eu deveria realmente ser um monstro, um merda, para que até pessoas que eu conhecia a mais de 10 anos, pessoas que eu chamava de irmão e não de maneira leviana, estarem me abandonado. No entanto, aqui estava um exemplo de um cara que eu nem considerava meu amigo me dando uma super força, um apoio que foi fundamental. São nestas surpresas agradáveis que eu tento me focar e não nas desagradáveis. Pena que nem sempre isso é fácil de fazer.

Mais felizmente esse cara foi ontem no bar e pudemos trocar algumas palavras rápidas. Percebi que ele, assim como já havia dito anteriormente, não queria saber dos detalhes do que havia acontecido e nem nada do tipo. Percebi que ele estava realmente interessado em saber como eu tava, se estava procurando ajuda, se estava tomando remédios, se eu estava bem de verdade. Falou novamente que qualquer coisa era para eu dar um toque nele, no que ele pudesse ajudar ele tentaria. Se fosse bater um papo, tomar uma cerveja ou o que fosse. Cara, realmente existem pessoas boas no mundo. Estes meus poucos amigos que restaram mais essas surpresas que eu tenho de algumas pessoas me deixam muito feliz. Não consigo expressar em palavras como é poder escutar isso de uma pessoa. Saber que a pessoa genuinamente está interessado no teu bem estar, que ela não concorda com o que você fez mas entende que todos somos passíveis de erros e que temos que tentar sempre lidar com as consequências dos erros da melhor maneira possível. Novamente, cara, isso é fantástico!


PS:


O título deste post ia ser Incerteza. Incerteza porque quando eu comecei a escrever ia ser sobre que apesar de ter saído na sexta-feira e ter ficado melhor de ânimo hoje eu estava novamente angustiado e incerto sobre o meu futuro. Ia falar novamente que eu estava pirando e me sentindo triste e ansioso e uma série de outras coisas. Novamente, ao começar a escrever o post e escolhendo falar da parte boa (que foi ter saído) e me foquei mais nessa parte do que na parte ruim. Ter relembrado sobre ontem à noite e sobre essa pessoa que eu encontrei me fizeram, temporariamente, esquecer das coisas ruins que eu estava sentindo.

Após escrever o post inteiro acima, parei e reli ele algumas vezes. Tenho mania de fazer isso com todos os posts porque tento imaginar como uma pessoa estranha deve se sentir e pensar ao ler tudo isso que eu estou escrevendo. A medida que eu fui lendo e relendo eu percebi que eu estava muito feliz em poder contar tudo isso que eu contei. Muito feliz por ter passado por essa experiência. Sim, ainda estava me sentindo triste, angustiado, inseguro, incerto sobre o futuro. Entretanto, a felicidade e alegria que eu sinto é muito maior. Então, ao invés de focar na parte ruim eu vou focar na parte boa do que eu estou sentindo.

Entretanto, isso não significa que eu vou fingir que a parte ruim não está lá. Não vou enterrar esses meus sentimentos que nem eu sempre fiz ao longo da minha vida. Tenho que reconhecer que eles estão aqui dentro de mim e que eu preciso lidar com eles. Por isso que eu escrevi esse PS, meio longo, para dizer que além da alegria que eu estou sentindo também tem sentimentos ruins. Eles estão aqui e estão sendo gerenciados por mim. A existência deles dentro da minha cabeça me obrigam a honrá-los tanto quanto os sentimentos bons.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Post de Ontem Hoje - Parte 2

Onde continuamos assuntos inacabados....


Falei tanto no outro post Post de ontem hoje - Parte 1 sobre como eu sentia uma falta de esperança com o meu futuro que acabei não falando a coisa mais importante. A razão de ter perdido tanto tempo procurando coisas de decoração e utensílios para o meu apartamento é devido a uma mudança de postura que estou tentando adotar. Quero tentar ser uma pessoa mais otimista comigo mesmo e com o meu futuro. Não é algo fácil para mim, um pessimista de carteirinha, mas acredito que neste momento é a melhor escolha que eu posso fazer.

Sinto ainda uma certa sensação de fim do mundo rodeando a audiência no dia 27/10. Assim como na primeira audiência (a cerca de 4 meses atrás) eu estou focado na pequena possibilidade de o juiz determinar minha prisão diretamente na audiência. Segundo os meus advogados a chance gira em 1% e minha cabeça não consegue focar nos 99% restantes.

Apesar disto, posso dizer com toda sinceridade que esta minha angústia não é a mesma que eu sentia antes da primeira audiência. Formalmente eu não havia sido intimidado a comparecer a audiência, apesar de ser o réu acusado. Eu poderia não ter ido a audiência e ter forçado uma segunda audiência (fato que acabou acontecendo por outras razões que não vem ao caso). Entretanto eu escolhi ir na audiência, mesmo tendo o sentimento de que eu não voltaria para minha casa, de que iria diretamente para a cadeira. Esta decisão foi uma das mais difíceis que eu já tomei na minha vida e também uma das melhores. Ter tido essa maturidade, essa coragem, de realizar algo porque isto era o correto por mais que eu acreditasse que os prospectos para mim fossem ruins. Isto foi algo que me surpreendeu, não acreditava que eu era capaz de fazer isto. Logo, um pouco do mistério envolvendo a audiência foi dissipado.

Eu sei agora como funciona o procedimento, como é a sala da audiência, quem é o juiz e quem é a promotora. Eu estou indo para essa nova audiência com consciência de uma série de coisas. Claro, sempre haverão elementos desconhecidos que não podem ser previstos. Sim, posso ser preso diretamente na audiência. Entretanto, estes são fatos que estão no futuro e eu não posso controlá-los. Eu entendo isto agora e estou aceitando isto de uma maneira muito melhor. Não aceito 100%, verdade, mas entendo e compreendo isto também.

O que eu quero dizer com este exemplo e a caça às decorações para a minha casa é que eu estou tentando ter uma atitude mais positiva. Percebi que eu estava alimentando a paranoia dos meus pais de que eu ia ser preso e, por consequência, eles aumentavam a minha paranoia. Isto se tornava um ciclo infinito que somente aumentava, uma verdade bola de neve. Uma das coisas interessantes que decorreram do que eu relatei em Auto Estima é que a psicóloga me disse que, existe a chance, de que meus pais percebam como eu lidei bem com o episódio e comecem a ficar mais tranquilos em relação a rejeição que eu possa ter de outras pessoas.

Após a sessão, fiquei com isto na cabeça por alguns dias e tenho que concordar com o que ela disse. Percebi que as minhas reações em relação a tudo que está acontecendo estão refletindo nos meus pais. Assim como estava extremamente nervoso e angustiado antes eles também ficaram assim. Então me parece que se eu começar a mudar um pouco minha atitude por consequência estarei influenciando eles para melhor também.

Claro, esta postura mais positiva não é somente para ajudar os meus pais. Ela serve principalmente para me ajudar. Esta minha falta de vontade de realizar qualquer atividade antes da audiência, porque eu acreditava que iria preso e não conseguiria acabar nada começado, estava me engessando. Percebi que mesmo que a audiência fosse realizada e eu não fosse preso eu simplesmente arrumaria a desculpa de que enquanto não tivesse a condenação eu não poderia começar nada de novo. Esta condenação pode demorar anos. Então, eu simplesmente estava arrumando desculpas para não fazer nada. Eu estava sabotando a mim mesmo de uma certa maneira.

Minha idéia em adotar uma postura mais positiva é combater justamente isto. Procurar estes itens de decoração da casa são coisas que eu posso fazer da frente do meu computador e com algumas visitas a lojas. Não é uma tarefa dantesca (apesar de que a quantidade de opções é de deixar qualquer um louco, ou mais louco no meu caso). Escolher o piso que vai ser colocado, fazer alguns arranjos para o caso de eu ser preso (mas sem o pessimismo de ir preso, estou falando de medidas sensatas) como cancelar alguns serviços pagos mensalmente os quais somente eu tenho acesso e uma série de outras coisas ajuda. Ajuda a minha cabeça por estar fazendo algo de útil e por consequência eu me sinto útil. Ajuda os meus pais porque eles me veem fazendo algo de útil então acredito que passa a eles a confiança de que eu estou bem.

Logo, por mais que as vezes eu sinta um desânimo, uma apatia com a situação como um todo eu tenho que me forçar a dar um passo. A me movimentar. Vejam, não quero dizer com isto de que eu ache que eu tenho que ignorar esse meu sentimento de depressão e fingir que ele não existe. Estou dizendo que eu tenho que reconhecer esse sentimento e até certo ponto honrar ele. Não posso fingir que ele não está lá, senão irei voltar a fazer o que eu sempre fiz. Irei reprimir esse sentimento, irei armazená-lo dentro de mim, e ele simplesmente vai voltar em algum momento. Fazer isto é como guardar um veneno dentro de si, um veneno que pouco a pouco vai agindo e minando as suas forças.

O que eu quero dizer com dar um passo, nem que seja forçado, é reconhecer a apatia e desânimo. Saber que eles estão aqui dentro de mim e entender porque estou sentindo isso. Saber que isso é aceitável, se sentir mal as vezes. Saber que existem pessoas ao meu redor que querem me ajudar e com quem eu possa contar. Saber que eu posso pedir ajuda e que fazer esse pedido depende de mim. Dar um passo significa isso, enfrentar essa situação de frente. No meu caso, é tentar fazer algo de útil para que isso me gere uma confiança. Além disso, e essa é a parte nova, é poder chegar para uma pessoa amiga e dizer "Puxa, podemos conversar? Tô me sentindo meio mal hoje". Isto é algo que eu nunca poderia fazer antes. O mundo acabaria antes de eu falar essa palavras.


Hoje, eu preciso me forçar a dar esse passo. Ainda não é uma coisa natural para mim. Reconhecer isto é importante. Estas mudanças de postura, essa criação de um novo padrão de funcionamento, que irão me proporcionar, no futuro, a capacidade de dar esse passo de uma maneira natural. Assim espero!

PS 1 :


Enquanto estava procurando quadros de decoração, vi um com essa frase aqui ó:






Em tradução livre :

" A única pessoa que você está destinado a se tornar é a pessoa que você decide ser"

Para mim fez todo sentido! De uma certa maneira essa minha postura em geral, de procurar ajuda e querer melhorar, se resumem com essa frase. Eu quero ser uma pessoa melhor, esse é o meu objetivo. Somente posso alcançar isso com duas coisas: determinando isso como meu objetivo e indo atrás do objetivo!

PS 2:


Hoje, conversei de novo com um amigo que não conversava desde que eu fui preso. Ele já havia tentando conversar comigo diversas vezes anteriormente mas, por medo de como ele iria reagir, eu decidi ignorar ele. Hoje, quando ele me mandou uma mensagem resolvi falar com ele. Decidi isso porque entendi que as pessoas tem suas reações de acordo como elas devem ter ou sentir que é certo. Não existem reações boas ou ruins numa situação em que ninguém nunca passou antes. Isto veio também da questão do post Auto Estima mas principalmente dessa mudança de atitude mais positiva.

Eu poderia pensar, novamente, negativamente. Pensar que ele iria me xingar ou me tratar mal e me resguardar disso. Falei com ele entretanto esperando o melhor, que ele fosse continuar sendo meu amigo. Caso ele não correspondesse a essa minha expectativa então eu teria que ter a maturidade de lidar com isso. Felizmente meu otimismo foi correspondido. Conversamos sobre tudo um pouco e de uma maneira bem normal assim como éramos antigamente. Claro, conversamos sobre o que aconteceu mas em nenhum momento ele ficou especulando ou perguntando sobre o ocorrido. Ele foi muito legal e calmo e queria saber principalmente sobre mim e como eu estava. Isso me deu a tranquilidade de abordar o assunto com ele e explicar uma série de coisas. Foi algo muito legal e mais um ponto positivo para a minha auto estima!

Post de Ontem Hoje - Parte 1


Deveria ter postado isto aqui ontem (dia 09/10) mas hoje acabei por me distrair pesquisando coisas de decoração e utensílios para casa na internet. A mais de dois anos atrás eu havia comprado um apartamento na planta que está para ser entregue neste mês. Interessante notar que teve somente 1 mês de atraso. Sei que qualquer atraso é difícil de ver, mas conheço (ou conhecia né? afinal estas pessoas não falam mais comigo) várias pessoas que tiveram a entrega dos seus imóveis atrasadas em mais de meio ano e, em alguns casos, em mais de 1 ano.

Sei que parece um início estranho de post, considerando como quase todos os outros posts começaram, mas relato isto porque faz parte de uma mudança no meu comportamento que estou tentando adotar. A mudança não é o consumismo em si (afinal de contas, agora sem emprego vivo do seguro-desemprego! Pelo menos uma vez na minha vida o PT está fazendo algo de bom para mim), A mudança consiste em ter mais esperança para o meu futuro.

Ultimamente não achava que eu iria acumular em nada de bom pelo resto da minha vida. Não estava contente comigo mesmo em termos de auto estima (por isso tão importante para mim foi o evento relatado no post Auto Estima). Também não estava confiante que eu poderia dar seguimento na minha vida neste preâmbulo da audiência, eventuais recursos e a condenação. Muito menos achava que após cumprir minha pena eu seria capaz de recomeçar minha vida, seja em outra cidade ou até mesmo em outro país.

Entendo que isso até certo ponto se configure como uma depressão. Eu realmente não tinha muitas esperanças de que minha vida iria melhorar algum dia. Eu estava indo para a academia para melhorar fisicamente a questão de peso, diabetes, pressão alta. Eu estava indo na psicóloga e no psiquiatra para me entender melhor e buscar ajuda e apoio na busca de melhorar o meu Eu. Entretanto, apesar de considerar ambas as coisas importantes eu estava indo com a maré. Fazia estas coisas mas poderia muito bem não fazer elas. Não por não acreditar que estas ações não trariam benefícios mas por uma falta de vontade de viver acredito eu. Este sentimento não era contínuo mas era persistente. Aliás, ainda é.

Pensei em cometer suicídio diversas vezes e inclusive planejei como executar isso. Meu lado racional é tão calculista que tenho 3 planos distintos para cometer suicídio. Continuo aqui entretanto, porque apesar de sentir essa desilusão, essa descrença no futuro, eu, em algum nível de consciência, sabia que tinha que continuar indo para a frente. Lentamente estou entendendo que eu não quero me matar, não sinto mais essa vontade de maneira tão urgente. Estou pouco a pouco adquirindo confiança em mim mesmo, confiança de que eu consigo atravessar este período da minha vida.

Não é fácil conseguir seguir em frente em momentos de dificuldade na vida. Passei por outras dificuldades na minha vida, assim como todas as pessoas passam. Infelizmente esta minha característica de internalizar meus sentimentos fez com que estes períodos fossem mais difíceis do que deveriam ser. Hoje, na consulta com a psicóloga, estavamos conversando sobre esta questão de controle que eu tenho. Ela comentou que eu sou muito 8 e 80 em relação a isso, que eu preciso ter o controle total da situação (ou pelo menos a ilusão disto) ou então eu me torno extremamente submisso. Isto vindo de diversas histórias que eu relatei para ela (histórias as quais eu não irei reproduzir aqui, me desculpem) sobre como eu me portei em diversas situações ao longo da minha vida.

Essa minha obsessão por controle me faz abraçar mais coisas do que eu deveria em determinados momentos e acabo não tendo uma relação de igual para igual com as outras pessoas. De uma maneira geral me fez aguentar mais carga emocional do que eu deveria. Ao invés de compartilhar isto com as pessoas que estavam na mesma situação eu tendo a assumir um papel de "protetor", de alguém que esta controlando as outras pessoas, e acabo trazendo para os meus ombros os sentimentos dos outros. De uma certa maneira faço isto para ajudar as outras pessoas a se sentirem melhor. Como nunca fui uma pessoa de se abrir sobre si eu sempre fui um bom ouvinte dos problemas alheios. Isto é algo bom e positivo mas a partir do momento em que eu somente aceito a carga dos outros e não compartilho a minha a pressão maior fica comigo. Este comportamento individualista e arrogante (no sentido de que eu achava que seria capaz de lidar com tudo sozinho) me faz guardar mais e mais coisas dentro de mim.

A cerca de dois anos atrás, tive um outro problema pessoal muito grande. Na verdade, um problema da família como um todo. Este evento foi a coisa mais marcante que aconteceu na minha vida até hoje. Dificilmente se passa um dia que eu não pense nisso. Quando isto aconteceu, meus pais ficaram arrasados. Eu cheguei em um ponto a ter medo que eles fizessem a besteira de cometer suicídio. Toda essa tristeza, angústia, raiva e uma série de outras coisas que eles sentiam eram compartilhadas comigo. Eu era a base de apoio deles. Diversas vezes eu chegava em casa do trabalho e encontrava ambos chorando. Eles choravam em meu ombro por mais de hora e quando um parava o outro começava. Eu fui aguentando isto, dia após dia. Entretanto eu não compartilhava com eles a dor que eu sentia, uma dor semelhante a deles. O fluxo de sentimentos e emoções era deles para mim. Eu fiquei quieto e, estoicamente, fui aguentando a pressão.

Cheguei em um ponto em que comecei a sentir raiva dos meus pais porque somente eles despejavam a sua carga em mim. Não queria mais chegar em casa para ouvir os choros deles e nem queria confortá-los. Ao mesmo tempo, sentia culpa por sentir essa raiva deles. Entendo hoje que o erro foi meu. Eu deveria ter conseguido me abrir com alguém. Poderia não ser com eles, mas poderia ter sido com os meus amigos e outros parentes.

Até que em determinado ponto meu cérebro simplesmente estressou além do seu limite. Eu entrei em uma depressão severa, não sentia vontade de fazer nada. Levantava da cama de manhã para me arrumar para o trabalho mas não sentia vontade de ir trabalhar. Também não sentia vontade de ficar dormindo. Simplesmente não queria fazer nada. Se pudesse cavar um buraco no chão e me esconder dentro dele eu faria. Deixaria o mundo seguir seu caminho e me removeria dele.

O engraçado é que, lembrando desse período, eu queria cometer suicídio mas ao mesmo tempo não queria. Eu não queria mais viver a minha vida, queria que tudo parasse. Uma das formas que eu imaginei que poderiam me ajudar nisso era o suicídio e mesmo assim até esse ato eu não sentia vontade de fazer. Atravessava os dias no trabalho mecanicamente. Eu era algo similar um robô de carne e osso. Fazia minhas tarefas, voltava para casa no fim do dia mais por que este era a rotina do que por outra coisa.

 Isto também está relacionado ao que eu fiz, assim como expliquei um pouco no Como folhas ao vento . Cheguei em um estado de anestesia tão completo que acredito que, quando a oportunidade se apresentou de liberar um desejo reprimido, eu simplesmente explodi. Tudo que eu guardava dentro de mim (a tristeza, a raiva, o rancor, os meus ímpetos) acabaram sendo manifestados de uma maneira violenta.

Comentei hoje com a psicóloga que eu penso nisso como se eu fosse uma represa. Eu construí uma represa interna e guardei tudo o que eu sentia atrás dela. Ela lentamente foi enchendo, até o momento que ela começou a transbordar. Se eu tivesse procurado ajuda mais cedo talvez eu poderia ter aprendido mecanismos para esvaziar essa represa de uma maneira controlada. Infelizmente não procurei essa ajuda. A represa simplesmente estourou um dia. Uma pessoa inocente, que não tinha nada a ver com a minha história, foi machucada por mim nessa explosão. Não busco dar desculpas pelo o que eu fiz, sei que estou errado. Simplesmente estou querendo dizer que uma sucessão de erros meus, provenientes da minha imaturidade de maneira geral, trouxe consequências terríveis.




sábado, 3 de outubro de 2015

Como folhas ao vento... estes são meus pensamentos


Estava lendo e relendo o último post, Auto Estima, e refletindo sobre o título em si. Não sobre a palavra em si, ou o seu conceito, mas no impacto que isso teve e tem na minha vida como um todo. Talvez este post seja um pouco vago demais, afinal irei tentar explicar questões minhas sem entrar nos detalhes das mesmas. Isto me parece levar a uma falta de clareza e objetividade do post e impacta um leitor que não possui todas as informações de contexto necessárias para poder analisar e entender o que vou dizer.

Peço desculpas a quem, por ventura, estiver lendo este post por isso. Espero que no futuro eu consiga me sentir confortável para entrar em maiores detalhes e, então, irei referenciar novamente este post de maneira que acredito que o mesmo ficará mais claro. Assim espero!



Na primeira sessão de terapia com a minha psicóloga, eu acabei por assustar ela com a natureza do meu problema e uma série de outras questões.

Primeiramente, que fique claro, eu havia recentemente ganho um habeas corpus e estava novamente em liberdade após um período de 2 meses na cadeia. Logo, havia dentro de mim uma série de sentimentos e medos reprimidos ao longo destes 2 meses os quais estavam me fazendo surtar. Basicamente, eu tinha uma sensação imediata de que a qualquer momento, não importando onde eu estivesse, apareceriam policiais para novamente me levar a prisão. Essa certeza de que a qualquer momento eu iria novamente preso era tão inabalável que todo dia eu acordava as 06:45 da manhã, tomava um banho, me trocava e ficava sentado em minha cama aguardando que a polícia chegasse. Isto é devido ao fato de que fui preso as 07:15 da manhã, logo imaginei que quando os policiais voltassem eles iriam novamente me prender neste horário.

Além disto, ao andar na rua eu constantemente olhava por cima dos meus ombros e para os lados. Eu tinha certeza que haviam policiais me seguindo e eles estavam somente esperando o melhor momento para me prender novamente. Ao sentar no sofá dentro do consultório da minha psicóloga eu passava mal de tanta ansiedade que eu sentia. Isto se deve pelo posicionamento do sofá que obriga quem senta nele ficar de costas para a porta. O fato de eu não poder enxergar a porta me incomodava de uma maneira absurda. Vejam, mesmo que fosse verdade que a polícia iria adentrar pela porta o fato de eu conseguir enxergar isto não mudaria o fato de ser preso ou não. Mesmo considerando esta lógica, que fazia sentido racionalmente para mim, eu ainda me sentia incomodado por não poder manter vigília na porta.

Fora este estado de nervos em que eu me encontrava eu acabei por ter uma diarreia mental e verbal e relatei, em torno de 1h20m  -- 20 minutos a mais do que eu deveria : ) Me desculpa psicóloga! --, todo o meu problema. Depois de várias sessões conversei com a psicóloga a respeito desta primeira sessão e em como, posteriormente relembrando da mesma, eu achava que eu a havia assustado e chocado. Acho que essa foi uma das sessões mais legais que tive, porque ela foi muito honesta e transparente no que ela disse. Basicamente, ela me disse que eu havia sido o primeiro paciente dela com este problema e que isso realmente a pegou de surpresa. Além disto, ela me contou que teve que refletir se ela estava a vontade com o meu problema para que ela pudesse me ajudar. Felizmente ela tomou a decisão de me ajudar e eu fico muito grato por isso!

Perto do final daquela primeira sessão (novamente peço desculpas pelos 20 minutos extras dos quais eu me "apropriei" indevidamente) chegamos numa questão de auto estima. Em como, no meu relato para ela, ela pensava que eu tinha uma auto estima muito baixa em relação a minha pessoa fisicamente. Admiti para ela que tinha problemas de auto estima ao pensar no meu corpo e que sempre considerei que o meu único atributo bom era minha inteligência; devido a isto tinha medo de tomar remédios que alterassem a minha química cerebral por ter medo de que os mesmos fossem interferir com a única coisa boa que eu tinha.

Este problema de auto estima em relação ao meu corpo, segundo ela, poderia acarretar no meu pronlema. Que isto era algo a ser analisado futuramente e que poderia ser trabalhado. Desde então não consigo me lembrar de nenhuma outra sessão onde tenha tocado nesse assunto. Tivemos inúmeras sessões onde tocamos no meu problema e o analisamos sob uma diversidade de outros aspectos mas nunca mais em relação a auto estima. Penso se isto não foi proposital de minha parte, mesmo que em um nível inconsciente, por me sentir incomodado com o assunto. Ao escrever no último post como minha auto estima teve uma melhora recentemente (ver Auto Estima para mais detalhes) é que voltei a pensar neste assunto.  Por fim, chegamos a intenção original deste post ( e só demoramos meia Bíblia de texto para chegar lá :-/ )

Esta questão de auto estima me parece não ser a razão principal do meu problema. Ao longo de várias sessões que eu tive com a psicóloga e com o psiquiatra também, foram levantados uma série de fatores que contribuem para o meu problema. Alguns destes fatores compõem teorias sobre como eu sou como eu sou. Entretanto, após entrar novamente nesta senda da auto estima, me parece que nenhuma destas teorias realmente explicam o início do meu problema. Não me parecem explicar o porque de eu ser como eu sou. Todavia, elas parecem me explicar o porque eu persisti neste caminho que me levou aonde eu estou hoje. Quero dizer com isto que estes fatores e teorias fazem sentido para mim como facilitadores e perpetuadores do meu comportamento errado e não como causadores do mesmo. Não sei se será possível um dia descobrir a origem do meu problema. Existem muito poucos estudos clínicos que estudam a minha condição, mesmo considerando fontes médicas fora do Brasil.

Logo, me parece que por um tempo irá perdurar o mistério de porque eu sou como sou. Entretanto, apesar de achar que seria muito importante e interessante descobrir o inicio do meu problema, me parece que é de maior importância aprender a lidar com o meu problema e seus impactos. Devido a isto, aprender os mecanismos que fazem com que o meu Eu queira sucumbir aos meu lado escuro e realizar atos ruins e aprender a gerenciar isto é o mais importante. Além disto, preciso aprender a construir novos padrões de funcionamento mentais que me permitam controlar a minha impulsividade. Esta impulsividade exagerada, e meu péssimo controle sobre ela, também contribuem diretamente para eu não controlar o meu Eu em determinados momentos e permitem que ele faça coisas ruins.

Em resumo, a minha auto estima me leva a procurar situações em que o meu físico não constitua um problema em relações inter pessoais. Em algumas das várias conversar com a minha psicóloga, ela percebeu de mim um receio em ser rejeitado. Isto advém também do fato de eu ser adotado. Meus pais me adotaram quando eu era um bebê de alguns dias, logo após eu nascer. Eu nunca conheci meus pais biológicos e nunca tive interesse em fazer isso. Além disso, nunca foi tabu na minha casa o fato de eu ser adotado. Essa questão sempre foi discutida á luz do dia.

Entretanto, ao que parece a minha psicóloga, eu tenho problemas com rejeição. Ela se baseou no meu padrão de reação sobre como certos amigos e família me negaram a sua convivência após eu ter sido preso e como, devido a isto, eu me sentia um pária (literalmente um merda, um bosta que não serve para nada). Aliado a isto também tem o fato de que eu descrevi meus sentimentos utilizando as palavras exatas de crianças com sentimentos de rejeição por terem sido abandonadas pelos seus pais. Amarrando isto com a minha adoção parece a ela, e após refletir muito a mim também, que eu realmente tenho uma dificuldade enorme em ser rejeitado. Que devido a acreditar que eu não valho a pena como pessoa eu tenha tacado um foda-se, a tudo e a todos, e cometido os atos que eu cometi. Afinal de contas, se eu sou uma pessoa ruim, que ninguém em tese deveria gostar, é normal que eu cometa atos ruins não? Deveria ser o esperado de uma pessoa ruim como eu cometer atos ruins.

Além disto eu tenho mania de controle, não gosto de estar em situações em que eu não tenha poder de decisão sobre o que vai acontecer comigo e a minha volta. Sempre tive na minha vida profissional um certo grau de controle (nem que fosse a ilusão de controle). Sempre tive planos para minha vida pessoal com planejamento para os próximos anos. Sempre acreditei em ser a pessoa mais inteligente da sala e devido a isto manipular os outros a minha volta para conseguir meus objetivos.

E esta mania de controle, aliado com a minha baixa auto estima, me levaram a cometer, duas vezes, um ato em que eu poderia me relacionar com alguém, contra sua vontade, onde a minha auto estima não importava e onde eu poderia manter o controle total sobre como a relação se desprenderia. Isto me parece claro, hoje, neste exato momento em que eu escrevo este texto. Sim, sou uma pessoa ruim pelo problema que eu tenho de atração. Entretanto, pareço ser uma pessoa pior pelo problema de desejo de executar esta minha atração de uma maneira extremamente violenta. Sou ainda pior do que isto por querer executar esse desejo de uma maneira covarde, que me permita manter controle total da situação. 


Estes dois fatores, estas duas características minhas, são, para mim, aliadas com a questão de impulsividade os meus maiores desafios hoje. Eu preciso mudar. Resistir a mudança nestes quesitos é uma sentença a longo prazo para que eu me perca na minha escuridão novamente. Lições duras às vezes são necessárias para que as pessoas aprendam determinadas coisas. Estou tendo as lições mais duras da minha vida nesse momento. Se irei fazer jus à minha arrogância de me achar inteligente então preciso aprender com estas lições. Não posso simplesmente ignorá-las. O caminho é duro, longo, sombrio, solitário em alguns pontos mas ele precisa ser percorrido. A vontade de mudar, a vontade de não cometer coisas ruins, a vontade de conquistar novamente o respeito, carinho e confiança das pessoas que eu amo, a vontade de não machucar mais ninguém inocente são imperativos. Eu irei tropeçar diversas vezes nestes caminho. Eu irei cair diversas nesse caminho. Eu irei me equilibrar novamente cada vez que eu tropeçar. Eu irei levantar cada vez que eu cair. Eu irei melhorar a cada passo. Eu irei chegar do outro lado. Eu acredito em mim. 

 Teoria de Rejeição - Post Scriptum


Originalmente não queria acreditar nessa teoria da rejeição. Para ser honesto não acreditava que ela estava correta. Entretanto após refletir muito sobre isso me parece que ela faz muito sentido. Me sinto mal por ser rejeitado pelos outros. Me sinto mal por não ser me dada uma chance para que eu possa fazer entender o meu problema aos outros. Isto me deixa muito mal internamente. Sinto raiva, tristeza, depressão, vontade de me matar ás vezes devido a isto. Ao longo destes meses em que eu tenho feito terapia no entanto tenho aprendido a lidar melhor com esses sentimentos. Passo por lutas diárias com o que eu sinto, mas posso dizer com felicidade que não sinto vontade de me matar a várias semanas.

Por mais que às vezes eu ache que a minha situação não tem jeito, que não existe luz no fim do túnel, eu tenho conseguido perseverar e me manter firme no meu caminho. Tenho esperanças agora de que eu consigo alterar meus padrões de funcionamento, afinal já dei provas práticas para mim mesmo de que eu mudei. Penso nas pessoas para quem eu cometi este mal e fico triste por ter-lhes machucado e ao mesmo tempo elas me inspiram pela sua maturidade, força e coragem em continuar. Penso nas poucas pessoas que estão me apoiando neste caminho, cada uma de sua maneira e cada maneira importante e imprescindível. Penso no esforço, coragem e maturidade que preciso ter para continuar. Penso que seria muito fácil optar por me retirar deste mundo e não ter que lidar com isto.

Entretanto, não enfrentar os seus problemas é contra tudo que eu sempre acreditei pessoalmente e profissionalmente. Sempre fui capaz de admitir meus erros e tentar consertá-los. Não é agora, em que o erro é enorme, que eu irei deixar de acreditar nisso. Talvez mais ainda agora seja a hora de pagar pelos meus erros, de alguma maneira e com alguma dignidade. Após este hiato que a minha vida terá, após eu quitar a minha dívida com a sociedade, eu posso, de alguma forma, tocar a minha vida. Até porque mesmo que a minha dívida legal com a sociedade esteja quitada, a minha dívida moral e pessoal com as pessoas que eu machuquei, com as pessoas que estão me ajudando e comigo mesmo não estarão quitadas. Talvez elas nunca possam ser pagas, mas o mínimo que eu posso fazer é tentar.