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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sobre se odiar | About self-hate

As usual, the english version is located at the bottom.

No mundo de hoje é muito fácil acabar em uma situação onde você desenvolve sentimentos ruins sobre si mesmo. Dúvidas sobre se suas idéias, jeito de se expressar, seu corpo, como você se veste, orientação sexual e diversos outros tópicos geram confusão sobre você mesmo. Aliado com a disseminação quase universal de informação online não é difícil você encontrar opiniões de pessoas que atacam diretamente algumas das suas características e dizem que elas são ruins. Logo, não me parece difícil que uma pessoa comece a duvidar de si mesmo e até mesmo se odiar devido a isso. Às vezes intensamente.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Como se abrir com as pessoas (quando se é um pedófilo) ?

(Added an english version at the bottom)

Não existe uma maneira certa ou boa para contar esse tipo de notícia ou fato sobre si mesmo para alguém. Não obstante a ideia de que um pedófilo é um abusador de criança (mesmo que ele nunca tenha feito nada) é tão prevalente e perversa na cabeça das pessoas que elas terão uma dificuldade enorme de escutar você. Entretanto isso ainda é possível e para algumas pessoas necessário. Poder contar isso para alguém ajuda a distribuir a carga de carregar um segredo tão pesado. Pensando nisso seguem alguns conselhos sobre como fazer isso.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Uma noticia boa e Uma ruim

Bem,

Começando pela notícia boa :) Eu tirei minha tornozeleira eletrônica ontem!!! Meio atrasado a notícia mas ela é importante de qualquer jeito. Quando estava tentando conversar com o pessoal do DEPEN para ver o procedimento de retirada acabei mandando uma mensagem para o fale conosco deles reclamando da dificuldade em arrumar informações precisas.

Isto acabou chegando num escalão mais acima que acabou determinando que o pessoa do monitoramente verificasse meu caso e desse um jeito. Resultado, existe uma portaria que diz que é ônus do Juíz pedir a extensão. Na falta da mesma eu não posso ser prejudicada e ficar com a tornozeleira logo eles removeram. O cara me ligou as 5 da tarde perguntando se eu podia ir as 7 da noite para tirar. Claro que sim!!! Logo, estou 1 dia livre da tornozeleira.

A notícia ruim é que o Juíz pegou meu caso para analisar e dar a sentença. Não é exatamente uma notícia ruim afinal isso iria acontecer de qualquer jeito. Entretanto significa que meu caso está andando e logo logo devo saber meu destino.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Audaciosamente indo onde eu nunca fui

O título deste post indica muita coisa sobre o que estará escrito. Sim, uma tradução livre, adaptada, da famosa frase do Jornada nas Estrelas. Parte do texto que descreve a missão da Enterprise. Na série simboliza a idéia de que a nave explora novos sistemas no Universo. Significa avançar em direção ao desconhecido de coração aberto. Isto é o que eu decidi fazer com a minha própria vida.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Aniversário

Oi,

Conforme eu havia mencionado no post anterior eu estive um pouco deprimido neste último dia 7 de Dezembro. Nesta data foi o primeiro "aniversário" do dia em que eu cometi o meu crime. A síndrome do "aniversário" é algo que tem sido reconhecido, sob diferentes formas, por médicos e psicólogos no mundo todo. Todos passamos por eventos traumáticos em nossas vidas e temos a tendência de ligar o dia em que este evento ocorreu com nossos sentimentos de maneira que quando a mesma data acontece no próximo ano sentimos de volta as mesmas coisas.

Isto acontece, por exemplo, com o aniversário de morte de uma determinada pessoa que faleceu. Com o dia em que você recebeu uma notícia terrível. Por exemplo, provavelmente acontecerá com o pessoal de Mariana, e das cidades em volta, que irão se lembrar dessa tragédia para o resto das suas vidas, mas provavelmente se sentirão piores nos aniversários da tragédia. Nós, como seres humanos, temos a tendência de darmos mais atenção para eventos ruins do que para eventos bons. Temos a tendência de lembrarmos das coisas ruins e esquecer das coisas boas. Claro, todos nos lembramos do dia em que algo ruim aconteceu a anos atrás, mas não nos lembramos das inúmeras coisas boas que nos acontecem todo dia. A pessoa que te dá uma brecha no trânsito para você mudar de pista, alguém que para o carro para você cruzar a rua, alguém que abre a porta para você quando suas mãos estão ocupadas e etc. Estas pequenas coisas boas se juntam, no final do dia, e te dão a sensação de que o dia foi bom. Entretanto, uma coisa ruim é o suficiente para estragar o dia de qualquer um, se deixarmos.

De qualquer maneira, a razão principal de ter ficado ruim no dia 7 foi porque eu não conseguia parar de pensar no que eu havia feito e na vítima. A medida em que eu tenho feito terapia minha mente tem se voltado mais e mais para mim mesmo e tentado fazer sentido de quem eu sou. Recentemente eu consegui aceitar quem eu era, que eu tinha várias doenças que em conjunto me fizeram fazer o que eu fiz; Não uso estas doenças como desculpa porque sei que, apesar de tudo isso, eu deveria ter me segurado e não ter feito o que eu fiz. Conforme eu relatei no post anterior encontrei um lugar online com outras pessoas com a mesma doença que a minha. Conversando com eles percebi como, de suas próprias maneiras, eles encontraram jeitos para impedir que eles cedessem as suas tentações e impulsos. Enquanto que eu não consegui fazer isso. Então eu sei que existem pessoas com o mesmo problema que conseguem se controlar, logo o que eu fiz não é desculpável por causa disso.

A terapia tem me ajudado principalmente neste aspecto. Eu tenho aprendido mais sobre mim mesmo e como eu funciono. Tenho tido que enfrentar verdades incômodas sobre mim neste processo. Entretanto também tenho tido a chance de aprender como eu sou e planejar como eu quero ser. Essa característica, de olhar para o futuro e almejar algo melhor, tem sido fundamental na terapia. Com todo esse trabalho psicológico que eu tenho feito tem ficado cada vez mais claro a enormidade do que eu fiz. Da gravidade do crime que eu cometi e pelo o qual eu tenho que pagar. E tudo isto retornou, com a força de uma avalanche, na minha cabeça no dia 7.

Essa avalanche de sentimentos e pensamentos não era boa. Todos os meus pensamentos, direcionados a mim mesmo, eram agressivos. Eu pensava que eu era um monstro, uma pessoa horrível. Talvez a pior pessoa a jamais ter pisado na superfície do planeta Terra. De que não deveria ser permitido que eu respirasse por mais um segundo. Que a única coisa lógica a ser feito era me matar. Que apesar de que isto fosse trazer um sofrimento a curto prazo para a minha família e amigos seria melhor a longo prazo.  Pensava como era possível que eu tivesse feito algo com a vitima mesmo vendo ela chorando. Mesmo quando eu percebi o exato momento em que ela entendeu o que iria acontecer com ela e soltou um lamento tão terrível e longo que me corta o coração só de lembrar.

Pouco a pouco, a medida que o tempo foi passando, eu fui me acalmando. Conversei com a minha mãe sobre como eu estava me sentindo mal e ela passou mais de 1 hora sentada ao meu lado na cama enquanto eu estava deitado e chorando. Minha mãe é partidária da máxima de "Se você não pensar sobre algo este algo não pode te afetar (ou talvez nem existir)". Não é a toa que eu aprendi a guardar os meus sentimentos ao invés de lidar com eles. Ela começou a falar comigo sobre uma série de assuntos banais (atualizações de Facebook de Fulano, A Fazenda, Masterchef) e é impressionante a habilidade que ela tem de fazer estes assuntos anêmicos virarem conversas longas. Quando eu percebi que ela estava animada e que iria continuar por um bom tempo eu comecei a dar risada. Uma risada que chegou a virar gargalhada e que então me fez doer a barriga. Ela me olhou como se eu estivesse louco e começou a dar risada também. Mães tem um jeito especial de fazer os filhos se sentirem bem.

Conforme o dia foi andando consegui começar a racionalizar os meus sentimentos. Não ignorei eles, aceitei que estivesse me sentindo mal mas comecei a gerenciar eles. Me permiti me sentir mal mas também comecei a me questionar sobre o que eu faria com o que eu estava sentindo. Novamente comecei a pensar na vítima e como eu admirava a força dela. De ter ido a polícia. Como ela estava lidando com as coisas. Novamente me senti um covarde em comparação mas firmei meu compromisso de me igualar a ela um dia. Nem que fosse à metade da coragem dela mas eu iria. Eu iria enfrentar a cadeia, fazer terapia e garantir que aquilo não voltasse a acontecer, tomar os remédios que eu tivesse que tomar. Também firmei minha resolução de melhorar quem eu sou. Me matar é a opção fácil, sem trabalho. Apesar disso, deixo claro que isto é algo que eu disse para mim mesmo, para me forçar a acreditar que existe um futuro e que eu devo trabalhar em direção a ele, não importa quão difícil isto seja.

 Me falaram à um tempo atrás que suicídio é um ato egoísta. Respondi que sim, é. O suicida acredita firmemente que sua situação é irreversível e incorrigível logo se matar é a única opção. Um suicida não pensa nos outros, somente em si porque sua angústia leve a pessoa a pensar somente em si. Esta é a razão pela qual depressão é tão difícil de combater. Ela exige que a pessoa pare de se focar um pouco em si mesmo, e na situação difícil que está vivendo, e comece a olhar ao seu redor e para o seu futuro. Isto é muito difícil quando você está em uma situação difícil. Lembram do começo do post? Que prestamos mais atenção no ruim que no bom? Então, é bem por aí. Por isso que é muito importante que quando uma pessoa se demonstra suicida (tendo pensamentos suicidas) que nunca se diga que isto é covardia ou besteira. Vejam, a pessoa tem a crença firme que provavelmente não vale muita coisa e que sua situação é difícil e sem resolução. Dizer que isto é um ato covarde ou besteira só reafirma a opinião ruim dessa pessoa sobre si mesma. Ao fazer isto, mesmo tendo-se a melhor intenção do mundo, é empurrar esta pessoa cada vez mais para o caminho de se matar.

De qualquer maneira, eu consegui me recuperar da depressão o suficiente para conseguir me segurar emocionalmente. Não é fácil isto. Também decidi usar essa memória, do sofrimento da minha vítima, como um lembrete para a próxima vez que eu me sentir tentado a fazer algo errado. Esta tentação não ocorreu novamente, pelo menos não no mesmo grau de intensidade. Nas vezes em que ocorreu eu consegui, utilizando as ferramentas que eu aprendi na terapia, me controlar. Inclusive, desde que eu me aceitei eu tenho percebido que isto se tornou mais fácil. Admitir para mim mesmo que eu tenho um problema e me aceitar me ajudaram a entender que o que eu sinto. Apesar de o que eu sentir não ser errado, desde que sejam somente fantasias, o que é errado é quando isto se transforma em ação. Logo, pensamentos ruins na cabeça todos temos. Xingar e pensar que você quer matar o babaca que te fechou no trânsito é uma coisa. Perseguir o carro do babaca e realmente matar ele é crime. A mesma analogia se aplica a minha doença. Sentir um atração é uma coisa. Tomar uma ação para satisfazer a atração não é. Esta lição foi difícil de aprender mas foi aprendida. Pena que necessitou eu ter machucado alguém, ter acabado com a minha e ir preso para aprendê-la.

domingo, 25 de outubro de 2015

Bliss Redux

Oi,

Pelo nome do post já dá para entender que é novamente sobre algo inesperado mas que foi legal. Eu falei no último post, que tinha o nome de Bliss, sobre como foi legal dar uma saída na sexta-feira e ir para um barzinho com algumas amigas. Foi algo totalmente inesperado e acho que por isso a sensação de que foi tão bacana é tão forte.

Ontem, no sábado, aconteceu algo bem parecido! Um amigo meu, que inclusive vai testemunhar a meu favor no dia 27, me mandou uma mensagem me convidando para ir comer uma pizza com ele e a esposa dele. Somos amigos já faz algum tempo, mais de 10 anos, e sempre me dei bem tanto com ele quanto a esposa dele. Ele já havia vindo aqui em casa duas vezes desde que eu saí da cadeia mas a esposa dela ainda não tinha encontrado. Já havia falado com ela via telefone algumas vezes e sabia que ela estava tranquila em relação a mim. Com isso quero dizer que não estava me rejeitando ou surtando em relação ao que eu fiz. Claro que isso não quer dizer que ela concorda com nada do que eu fiz, mas ela entende o meu contexto e me apoia bastante para ir na psicóloga e no psiquiatra. Logo, ver ela pela primeira vez em alguns meses foi bem legal.

Se divertimos bastante, que nem antigamente (antes de ter todos estes problemas). Tomamos um vinho, comemos pizza e ficamos batendo papo sobre um monte de coisas, desde filmes até livros e etc. Claro, falamos também sobre a minha situação porque ela é advogada (especializada em trabalhista) mas de uma maneira bem legal. Gosto muito de ambos e respeito eles também. São pessoas bem legais e sérias, que ponderam bastante as coisas então sempre gostei de ouvir as opiniões deles sobre tudo. Agora, com a minha situação em um caos total, prezo bastante a opinião deles sobre como as coisas estão, em como eles veêm meu futuro, o julgamento e etc. No geral, posso dizer que foi uma experiência muito agradável. Chegamos lá por volta das 20h30m e saímos era quase 1h da manhã! Pizzaria que fomos é bem legal também, nunca havia ido lá e além de a comida ser muito gostosa o atendimento é 10! Em resumo, uma noite muito bacana mesmo!

Para quem estava a alguns dias tendo crises fortes de ansiedade e pavor, ver post Medo, ter logo em seguida ter tido dias tão legais é desconcertantes. Digo isto porque nunca imaginaria que eu teria a chance de sair dois dias seguidos sendo convidados por pessoas que eu gosto de uma maneira totalmente aleatória. Claro, imagino que estes meus amigos aproveitaram a chance de que iam sair e lembraram de mim (e sabendo de como eu devo estar me sentindo nessa semana que antecede o dia 27) e resolveram me convidar. Essas surpresas, por serem algo que eu realmente não esperava, me fizeram tão bem quanto a experiência de sair nos dois dias me fizeram.

Estava realmente me sentindo mal nessa semana e ter tido a chance, do nada, de espairecer e dar risada com algumas pessoas que eu adoro é incrível. Acho que estava me sentindo um pouco abandonado pelo mundo em geral (eu e as minhas piras de rejeição). Ter tido essas duas surpresas concomitantes foi além do que eu poderia imaginar de algo bom acontecendo comigo.  Me acalmaram a mente e principalmente me ajudaram a diminuir um pouco a ansiedade. Ela ainda está aqui, ainda sinto vontade de subir pelas paredes e arrancar os cabelos, mas sei que existem pessoas que se importam comigo e que estão por ai quando eu precisar.

Isto é algo que eu deveria saber já. Sim, várias pessoas sumiram da minha vida mas estas poucas boas pessoas ficaram. Não deveria duvidar de que elas estão me apoiando de verdade ou de que elas se importam mesmo comigo. Minha cabeça no entanto me faz ter algumas piras sobre como todo o mundo me abandonou e que eu estou sozinho para enfrentar tudo que está vindo. Acho que isso é muito derivado do fato de que eu me isolei de todos (minha família, meus amigos) por anos a fio guardando um segredo dentro de mim o qual não poderia contar para ninguém. Nunca pude confiar 100% em alguém, não por achar que essa pessoa era indigna de confiança mas porque eu acreditava que nunca poderia revelar esse segredo para ninguém.

É baseado nessa crença que eu me impedia de ir buscar ajuda profissional num psicólogo ou psiquiatra. Simplesmente não me sentia a vontade de relatar a ninguém o que eu sentia e pensava. Muito mais que isso não me sentia a vontade de relatar o que eu era (e sou ainda) e como isso afetou quem eu sou. Se eu tivesse tido a maturidade para ter dado esse passo antes talvez minha vida não estaria do jeito que está hoje. Possivelmente eu não teria ido para a prisão e não estaria no meu caminho de ir para lá novamente. Este é um dos maiores pontos positivos da minha prisão este ano, acredito eu.

Não precisei contar para ninguém meu segredo, ele foi escancarado a força para todo o mundo ver. Meu maior medo, que era ser descoberto pelo o que eu sou, foi concretizado. Da noite para o dia minha vida inteira caiu em pedaços. Perdi meu emprego, vários amigos e algumas pessoas da minha família. No entanto, isso resultou em várias coisas boas também. Pude ser honesto com as pessoas que eu amo e recebi apoio delas de volta. Pude procurar ajuda de uma maneira consciente. Tem dias que eu acho que não quero mais ir para a terapia porque descubro cada vez mais que eu não me conheço. Descubro coisas que não acho boas em relação a mim mesmo. Acho que não vou ter a força de vontade de mudar essas coisas ruins. Entretanto, persisto em continuar indo lá na terapia. Principalmente porque consigo perceber várias situações, algumas delas relatadas aqui em posts antigos, onde tive uma reação muito melhor do que teria antes de ser preso. Ver que todo esse esforço dá resultado me anima muito. Me da ânimo para continuar tentando e me esforçando.

Em resumo, o que eu mais percebo desta minha experiência toda deste ano é:

Existem lições que devem ser aprendidas do jeito difícil.

Como eu disse anteriormente eu poderia ter evitado muito dos meus problemas deste ano. Se eu tivesse sido um pouco mais aberto com os outros, um pouco mais maduro talvez eu não precisasse ter perdido tudo o que eu perdi. Talvez eu não precisasse perder alguns anos da minha vida na cadeia. A realidade, no entanto, é esta. Posso lamentar todas as chances que eu tive e não aproveitei e elas não irão voltar. No entanto, eu posso, e acredito que devo, aproveitar todas as chances que eu tenho na minha frente agora. Tentar fazer o melhor delas. Existe uma expressão no Japão, Ganbare!

 

Ela quer dizer, Se Esforçe! ou Força! ou Dê o melhor de si!  Basicamente, isto quer dizer que no final do dia os resultados que você vai ter em tudo dependem de você. Do seu esforço, da sua garra. Isso para mim tem tido um significado profundo. Somente irei melhorar se eu quiser melhorar. Somente irei me tornar uma pessoa melhor se eu quiser ser melhor. Depende do meu esforço e, claro, como diriam os Beatles: "With a little help from my friends!" .  A ajuda dos amigos tem acontecido e muito esses últimos dias!!!! 

sábado, 24 de outubro de 2015

Bliss

Oi,

Espero que todos estejam bem.

Ontem fiz algo inédito para mim nestes últimos meses. Sai com alguns amigos (sim, ainda sobraram alguns felizmente) e fomos em um barzinho. Não havia saído de casa para fazer algo assim desde que entrei em liberdade provisória. Simplesmente não me sentia a vontade de sair e de repente dar de cara com alguém que conhecia e que me odeia agora. Não sabia como seria a reação desta pessoa. Poderia passar simplesmente de fazer cara feia a fazer algum escândalo. Logo, mais pelo não que pelo sim, simplesmente não saia de casa.

Não tinha segurança nenhuma, minha auto estima estava bem baixa, e caso acontecesse algo assim não sabia como eu reagiria a tudo. Ás vezes tinha a impressão de que eu ficaria puto caso a pessoa falasse algo e temia que eu acabasse envolvido em alguma briga. Ás vezes tinha a impressão de que se a pessoa falasse algo eu simplesmente começaria a chorar histericamente e desabaria.

Entretanto, de uma maneira geral, todas as essas questões de auto estima tem ficado melhores (conforme eu já havia comentado anteriormente) e me sinto melhor em relação a mim mesmo. Claro, ainda percebo que minha auto confiança e auto estima estão baixos mas pelo menos consigo reconhecer isto agora. Este simples fato, de conseguir me analisar e reconhecer isto, aliado com o fato de que tenho tentando "me resolver" (no sentido, conversar mais comigo mesmo, refletir mais sobre mim mesmo) tem me ajudado e navegar melhor por estas incertezas. Ainda não é perfeito esse gerenciamento mas é muito melhor do que ele era antigamente.

Então me senti confiante de ir no barzinho com essas minhas amigas para espairecer a cabeça um pouco. Com a audiência chegando agora no dia 27 eu senti que eu precisava fazer algo para aliviar a tensão um pouco. Logo, tomar umas cervejas e bater um pouco de papo sobre qualquer besteira me pareceu uma ótima solução. O encontro foi bem legal, cheguei lá em torno das 18h30m e fiquei até 23h30m. Nunca fui muito de sair para ir em algum bar, sempre preferi fazer algo em casa mesmo. Logo, nunca fui de ficar muito tempo no bar mas só essas poucas horas que eu fiquei já me levantaram o ânimo de uma maneira impressionante.  Fiquei muito feliz de poder ter feito algo normal.

Entretanto, percebi após pensar um pouco que um dos maiores motivadores para ter ido ao bar foi a questão da audiência do dia 27. Apesar de ter uma mísera chance de 1 ou 2% de ir preso novamente nesta audiência é somente nisso que eu consigo pensar ás vezes. Tenho conseguido gerenciar melhor essa ansiedade e expectativas descomunais em relação a um risco tão pequeno mas nem sempre consigo fazer um controle adequado. Logo, essa ida ao bar me pareceu uma certa despedida aos meus amigos. Uma última chance de ver eles antes de ser preso por vários anos.

Percebi isso porque eu havia tentando marcar um churrasco com um outro grupo de amigos para este sábado que infelizmente não rolou. Quando eles me avisaram, via e-mail, que não ia rolar, porque tinham outros compromissos, eu respondi dizendo que entendia e que poderíamos marcar para o próximo final de semana; internamente, entretanto, eu fiquei bem mal e triste e principalmente angustiado. Esses meus amigos vão depor a meu favor, como testemunhas de carácter, na terça feira agora e somente vou vê-los nesse dia. Senti que essa minha angústia era devido a achar que a última vez que eu veria eles seria na audiência a medida que eu fosse algemado e colocado numa viatura para ser despachado para algum presídio. Bizarro, eu sei, mas era como eu me sentia.

Uma surpresa inesperada nessa ida ao bar foi que uma pessoa que eu conhecia anteriormente, mas não chamava de amigo e sim de colega de trabalho, apareceu junto. Esse cara havia me mandado umas mensagens após eu ter sido solto e elas fizeram um bem enorme para mim. Ele me falou que não queria saber o que havia acontecido e nem se era verdade ou não. Ele estava interessado em saber como eu estava, se eu precisava de ajuda ou de alguém para conversar que era para contar com ele. Que ele estava com a cabeça aberta, não queria fazer julgamento de ninguém mas que gostava muito de mim e por isso achava que eu merecia pelo menos uma chance. Nunca iria esperar isso de alguém como ele. Nós sempre se demos bem no trabalho, inclusive até em alguns churrasco da empresa e etc, mas como eu disse acho que nunca poderia ter chamado ele de amigo. Entretanto, aqui estava ele, alguém que mal me conhecia me dando um apoio fundamental para que eu soubesse que não estava sozinho, que existiam pessoas que queriam me ajudar.

Teve pessoas que eu considerava mais que amigos, que eu considerava como se fossem irmãos, que me abandonaram. Algumas destas pessoas que inclusive mandaram avisar, via amigos em comum que eu ainda tenho, que eu estava morto para eles. Destas pessoas eu esperava apoio e não tive. Acho que isto, mais até dos problemas que estou tendo com meu irmão de verdade,  foi um dos principais fatores que me quebrou ao meio. Minha auto confiança e minha auto estima, após ser rejeitado por estas pessoas, que eu considerava tanto, simplesmente estilhaçaram. Pensava que eu deveria realmente ser um monstro, um merda, para que até pessoas que eu conhecia a mais de 10 anos, pessoas que eu chamava de irmão e não de maneira leviana, estarem me abandonado. No entanto, aqui estava um exemplo de um cara que eu nem considerava meu amigo me dando uma super força, um apoio que foi fundamental. São nestas surpresas agradáveis que eu tento me focar e não nas desagradáveis. Pena que nem sempre isso é fácil de fazer.

Mais felizmente esse cara foi ontem no bar e pudemos trocar algumas palavras rápidas. Percebi que ele, assim como já havia dito anteriormente, não queria saber dos detalhes do que havia acontecido e nem nada do tipo. Percebi que ele estava realmente interessado em saber como eu tava, se estava procurando ajuda, se estava tomando remédios, se eu estava bem de verdade. Falou novamente que qualquer coisa era para eu dar um toque nele, no que ele pudesse ajudar ele tentaria. Se fosse bater um papo, tomar uma cerveja ou o que fosse. Cara, realmente existem pessoas boas no mundo. Estes meus poucos amigos que restaram mais essas surpresas que eu tenho de algumas pessoas me deixam muito feliz. Não consigo expressar em palavras como é poder escutar isso de uma pessoa. Saber que a pessoa genuinamente está interessado no teu bem estar, que ela não concorda com o que você fez mas entende que todos somos passíveis de erros e que temos que tentar sempre lidar com as consequências dos erros da melhor maneira possível. Novamente, cara, isso é fantástico!


PS:


O título deste post ia ser Incerteza. Incerteza porque quando eu comecei a escrever ia ser sobre que apesar de ter saído na sexta-feira e ter ficado melhor de ânimo hoje eu estava novamente angustiado e incerto sobre o meu futuro. Ia falar novamente que eu estava pirando e me sentindo triste e ansioso e uma série de outras coisas. Novamente, ao começar a escrever o post e escolhendo falar da parte boa (que foi ter saído) e me foquei mais nessa parte do que na parte ruim. Ter relembrado sobre ontem à noite e sobre essa pessoa que eu encontrei me fizeram, temporariamente, esquecer das coisas ruins que eu estava sentindo.

Após escrever o post inteiro acima, parei e reli ele algumas vezes. Tenho mania de fazer isso com todos os posts porque tento imaginar como uma pessoa estranha deve se sentir e pensar ao ler tudo isso que eu estou escrevendo. A medida que eu fui lendo e relendo eu percebi que eu estava muito feliz em poder contar tudo isso que eu contei. Muito feliz por ter passado por essa experiência. Sim, ainda estava me sentindo triste, angustiado, inseguro, incerto sobre o futuro. Entretanto, a felicidade e alegria que eu sinto é muito maior. Então, ao invés de focar na parte ruim eu vou focar na parte boa do que eu estou sentindo.

Entretanto, isso não significa que eu vou fingir que a parte ruim não está lá. Não vou enterrar esses meus sentimentos que nem eu sempre fiz ao longo da minha vida. Tenho que reconhecer que eles estão aqui dentro de mim e que eu preciso lidar com eles. Por isso que eu escrevi esse PS, meio longo, para dizer que além da alegria que eu estou sentindo também tem sentimentos ruins. Eles estão aqui e estão sendo gerenciados por mim. A existência deles dentro da minha cabeça me obrigam a honrá-los tanto quanto os sentimentos bons.

sábado, 3 de outubro de 2015

Como folhas ao vento... estes são meus pensamentos


Estava lendo e relendo o último post, Auto Estima, e refletindo sobre o título em si. Não sobre a palavra em si, ou o seu conceito, mas no impacto que isso teve e tem na minha vida como um todo. Talvez este post seja um pouco vago demais, afinal irei tentar explicar questões minhas sem entrar nos detalhes das mesmas. Isto me parece levar a uma falta de clareza e objetividade do post e impacta um leitor que não possui todas as informações de contexto necessárias para poder analisar e entender o que vou dizer.

Peço desculpas a quem, por ventura, estiver lendo este post por isso. Espero que no futuro eu consiga me sentir confortável para entrar em maiores detalhes e, então, irei referenciar novamente este post de maneira que acredito que o mesmo ficará mais claro. Assim espero!



Na primeira sessão de terapia com a minha psicóloga, eu acabei por assustar ela com a natureza do meu problema e uma série de outras questões.

Primeiramente, que fique claro, eu havia recentemente ganho um habeas corpus e estava novamente em liberdade após um período de 2 meses na cadeia. Logo, havia dentro de mim uma série de sentimentos e medos reprimidos ao longo destes 2 meses os quais estavam me fazendo surtar. Basicamente, eu tinha uma sensação imediata de que a qualquer momento, não importando onde eu estivesse, apareceriam policiais para novamente me levar a prisão. Essa certeza de que a qualquer momento eu iria novamente preso era tão inabalável que todo dia eu acordava as 06:45 da manhã, tomava um banho, me trocava e ficava sentado em minha cama aguardando que a polícia chegasse. Isto é devido ao fato de que fui preso as 07:15 da manhã, logo imaginei que quando os policiais voltassem eles iriam novamente me prender neste horário.

Além disto, ao andar na rua eu constantemente olhava por cima dos meus ombros e para os lados. Eu tinha certeza que haviam policiais me seguindo e eles estavam somente esperando o melhor momento para me prender novamente. Ao sentar no sofá dentro do consultório da minha psicóloga eu passava mal de tanta ansiedade que eu sentia. Isto se deve pelo posicionamento do sofá que obriga quem senta nele ficar de costas para a porta. O fato de eu não poder enxergar a porta me incomodava de uma maneira absurda. Vejam, mesmo que fosse verdade que a polícia iria adentrar pela porta o fato de eu conseguir enxergar isto não mudaria o fato de ser preso ou não. Mesmo considerando esta lógica, que fazia sentido racionalmente para mim, eu ainda me sentia incomodado por não poder manter vigília na porta.

Fora este estado de nervos em que eu me encontrava eu acabei por ter uma diarreia mental e verbal e relatei, em torno de 1h20m  -- 20 minutos a mais do que eu deveria : ) Me desculpa psicóloga! --, todo o meu problema. Depois de várias sessões conversei com a psicóloga a respeito desta primeira sessão e em como, posteriormente relembrando da mesma, eu achava que eu a havia assustado e chocado. Acho que essa foi uma das sessões mais legais que tive, porque ela foi muito honesta e transparente no que ela disse. Basicamente, ela me disse que eu havia sido o primeiro paciente dela com este problema e que isso realmente a pegou de surpresa. Além disto, ela me contou que teve que refletir se ela estava a vontade com o meu problema para que ela pudesse me ajudar. Felizmente ela tomou a decisão de me ajudar e eu fico muito grato por isso!

Perto do final daquela primeira sessão (novamente peço desculpas pelos 20 minutos extras dos quais eu me "apropriei" indevidamente) chegamos numa questão de auto estima. Em como, no meu relato para ela, ela pensava que eu tinha uma auto estima muito baixa em relação a minha pessoa fisicamente. Admiti para ela que tinha problemas de auto estima ao pensar no meu corpo e que sempre considerei que o meu único atributo bom era minha inteligência; devido a isto tinha medo de tomar remédios que alterassem a minha química cerebral por ter medo de que os mesmos fossem interferir com a única coisa boa que eu tinha.

Este problema de auto estima em relação ao meu corpo, segundo ela, poderia acarretar no meu pronlema. Que isto era algo a ser analisado futuramente e que poderia ser trabalhado. Desde então não consigo me lembrar de nenhuma outra sessão onde tenha tocado nesse assunto. Tivemos inúmeras sessões onde tocamos no meu problema e o analisamos sob uma diversidade de outros aspectos mas nunca mais em relação a auto estima. Penso se isto não foi proposital de minha parte, mesmo que em um nível inconsciente, por me sentir incomodado com o assunto. Ao escrever no último post como minha auto estima teve uma melhora recentemente (ver Auto Estima para mais detalhes) é que voltei a pensar neste assunto.  Por fim, chegamos a intenção original deste post ( e só demoramos meia Bíblia de texto para chegar lá :-/ )

Esta questão de auto estima me parece não ser a razão principal do meu problema. Ao longo de várias sessões que eu tive com a psicóloga e com o psiquiatra também, foram levantados uma série de fatores que contribuem para o meu problema. Alguns destes fatores compõem teorias sobre como eu sou como eu sou. Entretanto, após entrar novamente nesta senda da auto estima, me parece que nenhuma destas teorias realmente explicam o início do meu problema. Não me parecem explicar o porque de eu ser como eu sou. Todavia, elas parecem me explicar o porque eu persisti neste caminho que me levou aonde eu estou hoje. Quero dizer com isto que estes fatores e teorias fazem sentido para mim como facilitadores e perpetuadores do meu comportamento errado e não como causadores do mesmo. Não sei se será possível um dia descobrir a origem do meu problema. Existem muito poucos estudos clínicos que estudam a minha condição, mesmo considerando fontes médicas fora do Brasil.

Logo, me parece que por um tempo irá perdurar o mistério de porque eu sou como sou. Entretanto, apesar de achar que seria muito importante e interessante descobrir o inicio do meu problema, me parece que é de maior importância aprender a lidar com o meu problema e seus impactos. Devido a isto, aprender os mecanismos que fazem com que o meu Eu queira sucumbir aos meu lado escuro e realizar atos ruins e aprender a gerenciar isto é o mais importante. Além disto, preciso aprender a construir novos padrões de funcionamento mentais que me permitam controlar a minha impulsividade. Esta impulsividade exagerada, e meu péssimo controle sobre ela, também contribuem diretamente para eu não controlar o meu Eu em determinados momentos e permitem que ele faça coisas ruins.

Em resumo, a minha auto estima me leva a procurar situações em que o meu físico não constitua um problema em relações inter pessoais. Em algumas das várias conversar com a minha psicóloga, ela percebeu de mim um receio em ser rejeitado. Isto advém também do fato de eu ser adotado. Meus pais me adotaram quando eu era um bebê de alguns dias, logo após eu nascer. Eu nunca conheci meus pais biológicos e nunca tive interesse em fazer isso. Além disso, nunca foi tabu na minha casa o fato de eu ser adotado. Essa questão sempre foi discutida á luz do dia.

Entretanto, ao que parece a minha psicóloga, eu tenho problemas com rejeição. Ela se baseou no meu padrão de reação sobre como certos amigos e família me negaram a sua convivência após eu ter sido preso e como, devido a isto, eu me sentia um pária (literalmente um merda, um bosta que não serve para nada). Aliado a isto também tem o fato de que eu descrevi meus sentimentos utilizando as palavras exatas de crianças com sentimentos de rejeição por terem sido abandonadas pelos seus pais. Amarrando isto com a minha adoção parece a ela, e após refletir muito a mim também, que eu realmente tenho uma dificuldade enorme em ser rejeitado. Que devido a acreditar que eu não valho a pena como pessoa eu tenha tacado um foda-se, a tudo e a todos, e cometido os atos que eu cometi. Afinal de contas, se eu sou uma pessoa ruim, que ninguém em tese deveria gostar, é normal que eu cometa atos ruins não? Deveria ser o esperado de uma pessoa ruim como eu cometer atos ruins.

Além disto eu tenho mania de controle, não gosto de estar em situações em que eu não tenha poder de decisão sobre o que vai acontecer comigo e a minha volta. Sempre tive na minha vida profissional um certo grau de controle (nem que fosse a ilusão de controle). Sempre tive planos para minha vida pessoal com planejamento para os próximos anos. Sempre acreditei em ser a pessoa mais inteligente da sala e devido a isto manipular os outros a minha volta para conseguir meus objetivos.

E esta mania de controle, aliado com a minha baixa auto estima, me levaram a cometer, duas vezes, um ato em que eu poderia me relacionar com alguém, contra sua vontade, onde a minha auto estima não importava e onde eu poderia manter o controle total sobre como a relação se desprenderia. Isto me parece claro, hoje, neste exato momento em que eu escrevo este texto. Sim, sou uma pessoa ruim pelo problema que eu tenho de atração. Entretanto, pareço ser uma pessoa pior pelo problema de desejo de executar esta minha atração de uma maneira extremamente violenta. Sou ainda pior do que isto por querer executar esse desejo de uma maneira covarde, que me permita manter controle total da situação. 


Estes dois fatores, estas duas características minhas, são, para mim, aliadas com a questão de impulsividade os meus maiores desafios hoje. Eu preciso mudar. Resistir a mudança nestes quesitos é uma sentença a longo prazo para que eu me perca na minha escuridão novamente. Lições duras às vezes são necessárias para que as pessoas aprendam determinadas coisas. Estou tendo as lições mais duras da minha vida nesse momento. Se irei fazer jus à minha arrogância de me achar inteligente então preciso aprender com estas lições. Não posso simplesmente ignorá-las. O caminho é duro, longo, sombrio, solitário em alguns pontos mas ele precisa ser percorrido. A vontade de mudar, a vontade de não cometer coisas ruins, a vontade de conquistar novamente o respeito, carinho e confiança das pessoas que eu amo, a vontade de não machucar mais ninguém inocente são imperativos. Eu irei tropeçar diversas vezes nestes caminho. Eu irei cair diversas nesse caminho. Eu irei me equilibrar novamente cada vez que eu tropeçar. Eu irei levantar cada vez que eu cair. Eu irei melhorar a cada passo. Eu irei chegar do outro lado. Eu acredito em mim. 

 Teoria de Rejeição - Post Scriptum


Originalmente não queria acreditar nessa teoria da rejeição. Para ser honesto não acreditava que ela estava correta. Entretanto após refletir muito sobre isso me parece que ela faz muito sentido. Me sinto mal por ser rejeitado pelos outros. Me sinto mal por não ser me dada uma chance para que eu possa fazer entender o meu problema aos outros. Isto me deixa muito mal internamente. Sinto raiva, tristeza, depressão, vontade de me matar ás vezes devido a isto. Ao longo destes meses em que eu tenho feito terapia no entanto tenho aprendido a lidar melhor com esses sentimentos. Passo por lutas diárias com o que eu sinto, mas posso dizer com felicidade que não sinto vontade de me matar a várias semanas.

Por mais que às vezes eu ache que a minha situação não tem jeito, que não existe luz no fim do túnel, eu tenho conseguido perseverar e me manter firme no meu caminho. Tenho esperanças agora de que eu consigo alterar meus padrões de funcionamento, afinal já dei provas práticas para mim mesmo de que eu mudei. Penso nas pessoas para quem eu cometi este mal e fico triste por ter-lhes machucado e ao mesmo tempo elas me inspiram pela sua maturidade, força e coragem em continuar. Penso nas poucas pessoas que estão me apoiando neste caminho, cada uma de sua maneira e cada maneira importante e imprescindível. Penso no esforço, coragem e maturidade que preciso ter para continuar. Penso que seria muito fácil optar por me retirar deste mundo e não ter que lidar com isto.

Entretanto, não enfrentar os seus problemas é contra tudo que eu sempre acreditei pessoalmente e profissionalmente. Sempre fui capaz de admitir meus erros e tentar consertá-los. Não é agora, em que o erro é enorme, que eu irei deixar de acreditar nisso. Talvez mais ainda agora seja a hora de pagar pelos meus erros, de alguma maneira e com alguma dignidade. Após este hiato que a minha vida terá, após eu quitar a minha dívida com a sociedade, eu posso, de alguma forma, tocar a minha vida. Até porque mesmo que a minha dívida legal com a sociedade esteja quitada, a minha dívida moral e pessoal com as pessoas que eu machuquei, com as pessoas que estão me ajudando e comigo mesmo não estarão quitadas. Talvez elas nunca possam ser pagas, mas o mínimo que eu posso fazer é tentar.



  

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Auto estima

Recentemente aconteceu algo em minha vida que a mudou para sempre. A única pessoa a quem eu responsabilizo por isso sou eu mesmo.

Eu tive a chance, há mais de 11 anos atrás, de pedir ajuda para à minha família em relação ao meu problema e não consegui fazer isso. Na época eu tinha 17 anos e não possuía a maturidade suficiente para admitir que eu tinha um problema apesar de estar ciente, em algum nível, de que eu tinha um problema.  

Este meu problema, inerente à minha mente, não será descrito em detalhes por enquanto, afinal ainda não sei até onde pretendo levar este blog. Além disso é algo muito delicado que gerou reações justificadas,  mas extremas, de pessoas que me conhecem e que não mais me consideram um amigo.
Como mesmo pessoas que eu contava como sendo próximas se afastaram eu reluto em contar exatamente a natureza dessa minha questão ao mundo, principalmente para pessoas desconhecidas. Por enquanto, basta que fique claro que eu tenho uma condição, um distúrbio, que me leva a perpetrar atos ruins que acabam machucando outras pessoas. 

Eu cometi tais atos contra uma pessoa que eu amava, e ainda amo, a mais de  11 anos atrás. Esta pessoa ainda hoje sofre com as consequências do que eu fiz e isso me incomoda muito.  Infelizmente quando eu fui levado para uma psicóloga para discutir essa questão eu neguei que havia feito algo. Neguei esse fato de maneira tão veemente que consegui enganar a própria psicóloga em achar que a pessoa que me acusava estava imaginando coisas.  Em parte devido a isto esta pessoa a quem eu cometi um mal terrível acabou por acreditar que imaginou o tal mal acometido contra ela. A verdade de que tais atos, que geraram um mal tão grande, realmente haviam sido cometidos somente apareceu no começo deste ano. 

Por uma série de razões, as quais eu ainda estou tentando elucidar, eu cometi novamente estes atos horríveis contra uma pessoa, a quem eu não conhecia, no final do ano passado. Felizmente essa pessoa teve coragem e maturidade suficientes para contar que algo ruim aconteceu com ela para sua família que então relatou isso a polícia

Graças à um bom trabalho policial eu fui identificado e encarcerado. Passei pouco mais de 2 meses na cadeia e fui solto por um habeas corpus perto da metade do ano.  Atualmente estou aguardando a audiência de instrução do meu processo.

Desde que eu fui solto estou à uma psicóloga, uma diferente da inicial, e de um psiquiatra para que eles possam me auxiliar e permitir que eu mesmo possa me ajudar. Terapia forçada, como me foi imposta pelo meu pai a 11 anos atrás, não serve para nada. A vontade de se entender e evoluir é vital no processo terapêutico. Tenho certeza que se eu não estivesse empenhado em passar por esse processo ele não me serviria de nada.

O processo é lento, difícil e angustiante às vezes.  Recentemente comentei com a minha psicóloga que antigamente tinha dificuldade, às vezes, de considerar o custo benefício da terapia como satisfatório.  Disse, numa analogia, que o custo de derrubar algumas paredes mentais era alto demais para compensar o benefício de subir somente uma pequena mureta em seu lugar. Relatei então que, recentemente, havia mudado minha visão em relação à isso. Que eu tinha percebido que estava comparando o tamanho da parede derrubada com o tamanho da mureta erguida e vendo que um não compensava o outro. Infelizmente isso não se aplica. Eu percebi que, na verdade, eu precisava enxergar que o esforço que eu estou fazendo em evoluir tem como fruto a soma do tamanho da parede derrubada e da mureta levantada. Isso sim é o benefício, o ganho, que eu estou tendo pelo meu esforço.Basicamente, eu ganho na destruição da construção mental ruim e também ganho na edificação da construção mental boa.

Toda essa introdução no entanto é para contar sobre um evento, ocorrido recentemente, que trouxe um bem enorme. Esse bem é relacionado com o título deste post.

Estive na casa da minha tia, que não mora na mesma cidade que eu, para visitar a minha família. Ao chegar lá fui bem recebido por todos mas notei que uma determinada pessoa não se encontrava lá. Descobri, posteriormente, que essa pessoa não estava confortável em me encontrar, em ter que lidar comigo. Isto devido ao que eu fiz recentemente e que me levou a ser preso além de a verdade em relação ao que eu cometi a anos atrás, para uma pessoa da minha família. Essa pessoa que não queria lidar comigo foi por muito tempo a melhor amiga da pessoa a quem eu cometi este mal.

De maneira resumida, meus pais tiveram uma reação explosiva em relação à atitude dessa pessoa que não queria me encontrar e uma briga de família generalizada foi deflagrada.  Enquanto eles estavam discutindo eu estava longe disto tudo, apesar de estar dentro da casa, ouvindo tudo. Sou uma pessoa impulsiva, o que facilita eu cometer esses atos ruins e devido a isso tomo medicação para controle de impulso, e tenho a tendência a ter reações exageradas tais quais às dos meus pais.

Logo, me afastei da discussão para conseguir organizar meus pensamentos antes de conversar com todos, para evitar que tivesse mais uma pessoa gritando e discutindo. De uma maneira resumida, consegui ter uma reação calma e sensata a tudo que estava acontecendo. Consegui lidar também com esta pessoa que não queria me encontrar sendo que ela acabou por vir a casa da minha tia diversas vezes no período que eu estava lá. Claro que não tivemos a mesma intimidade que tínhamos antes mas conseguimos conviver, nem que seja de uma maneira mais distante

Relato tudo isso para que seja possível entender algo muito importante. A minha reação frente ao que aconteceu foi muito diferente do que eu mesmo esperava. No começo deste ano a minha reação seria exagerada, explosiva. No entanto, agora tive maturidade suficiente para lidar de uma maneira positiva e construtiva com a situação

Fico muito feliz com isso! 

Minha psicóloga considerou que eu lidei muito bem com a situação e que isso aumenta a esperança dela que eu consiga criar um novo padrão de funcionamento mental. Que eu me torne uma pessoa menos ansiosa e impulsiva e que isto, por consequência direta, também irá me ajudar a não cometer esses atos ruins no futuro.

À  medida que ela me falava isso, e nos dias depois da consulta, essa ficha foi lentamente caindo na minha cabeça. De que eu fiz algo bom. Isso foi muito importante porque ultimamente não achava que eu poderia fazer algo bom. Minha auto estima estava destruída. Acreditava que eu não poderia nunca mais fazer algo de útil, algo de bom na minha vida. Sei que é algo exagerado da minha cabeça mas era como me sentia. 

Este evento, no qual eu me portei de uma boa maneira, aumentou minha auto estima novamente. Foi um alento para mim. Me deu esperanças de que eu tenho a chance real de melhorar. De que euevolui da pessoa que eu era. Isto me deu ânimo para continuar buscando um Eu melhor

Lucas