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quarta-feira, 30 de março de 2016

Como se abrir com as pessoas (quando se é um pedófilo) ?

(Added an english version at the bottom)

Não existe uma maneira certa ou boa para contar esse tipo de notícia ou fato sobre si mesmo para alguém. Não obstante a ideia de que um pedófilo é um abusador de criança (mesmo que ele nunca tenha feito nada) é tão prevalente e perversa na cabeça das pessoas que elas terão uma dificuldade enorme de escutar você. Entretanto isso ainda é possível e para algumas pessoas necessário. Poder contar isso para alguém ajuda a distribuir a carga de carregar um segredo tão pesado. Pensando nisso seguem alguns conselhos sobre como fazer isso.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Aniversário

Oi,

Conforme eu havia mencionado no post anterior eu estive um pouco deprimido neste último dia 7 de Dezembro. Nesta data foi o primeiro "aniversário" do dia em que eu cometi o meu crime. A síndrome do "aniversário" é algo que tem sido reconhecido, sob diferentes formas, por médicos e psicólogos no mundo todo. Todos passamos por eventos traumáticos em nossas vidas e temos a tendência de ligar o dia em que este evento ocorreu com nossos sentimentos de maneira que quando a mesma data acontece no próximo ano sentimos de volta as mesmas coisas.

Isto acontece, por exemplo, com o aniversário de morte de uma determinada pessoa que faleceu. Com o dia em que você recebeu uma notícia terrível. Por exemplo, provavelmente acontecerá com o pessoal de Mariana, e das cidades em volta, que irão se lembrar dessa tragédia para o resto das suas vidas, mas provavelmente se sentirão piores nos aniversários da tragédia. Nós, como seres humanos, temos a tendência de darmos mais atenção para eventos ruins do que para eventos bons. Temos a tendência de lembrarmos das coisas ruins e esquecer das coisas boas. Claro, todos nos lembramos do dia em que algo ruim aconteceu a anos atrás, mas não nos lembramos das inúmeras coisas boas que nos acontecem todo dia. A pessoa que te dá uma brecha no trânsito para você mudar de pista, alguém que para o carro para você cruzar a rua, alguém que abre a porta para você quando suas mãos estão ocupadas e etc. Estas pequenas coisas boas se juntam, no final do dia, e te dão a sensação de que o dia foi bom. Entretanto, uma coisa ruim é o suficiente para estragar o dia de qualquer um, se deixarmos.

De qualquer maneira, a razão principal de ter ficado ruim no dia 7 foi porque eu não conseguia parar de pensar no que eu havia feito e na vítima. A medida em que eu tenho feito terapia minha mente tem se voltado mais e mais para mim mesmo e tentado fazer sentido de quem eu sou. Recentemente eu consegui aceitar quem eu era, que eu tinha várias doenças que em conjunto me fizeram fazer o que eu fiz; Não uso estas doenças como desculpa porque sei que, apesar de tudo isso, eu deveria ter me segurado e não ter feito o que eu fiz. Conforme eu relatei no post anterior encontrei um lugar online com outras pessoas com a mesma doença que a minha. Conversando com eles percebi como, de suas próprias maneiras, eles encontraram jeitos para impedir que eles cedessem as suas tentações e impulsos. Enquanto que eu não consegui fazer isso. Então eu sei que existem pessoas com o mesmo problema que conseguem se controlar, logo o que eu fiz não é desculpável por causa disso.

A terapia tem me ajudado principalmente neste aspecto. Eu tenho aprendido mais sobre mim mesmo e como eu funciono. Tenho tido que enfrentar verdades incômodas sobre mim neste processo. Entretanto também tenho tido a chance de aprender como eu sou e planejar como eu quero ser. Essa característica, de olhar para o futuro e almejar algo melhor, tem sido fundamental na terapia. Com todo esse trabalho psicológico que eu tenho feito tem ficado cada vez mais claro a enormidade do que eu fiz. Da gravidade do crime que eu cometi e pelo o qual eu tenho que pagar. E tudo isto retornou, com a força de uma avalanche, na minha cabeça no dia 7.

Essa avalanche de sentimentos e pensamentos não era boa. Todos os meus pensamentos, direcionados a mim mesmo, eram agressivos. Eu pensava que eu era um monstro, uma pessoa horrível. Talvez a pior pessoa a jamais ter pisado na superfície do planeta Terra. De que não deveria ser permitido que eu respirasse por mais um segundo. Que a única coisa lógica a ser feito era me matar. Que apesar de que isto fosse trazer um sofrimento a curto prazo para a minha família e amigos seria melhor a longo prazo.  Pensava como era possível que eu tivesse feito algo com a vitima mesmo vendo ela chorando. Mesmo quando eu percebi o exato momento em que ela entendeu o que iria acontecer com ela e soltou um lamento tão terrível e longo que me corta o coração só de lembrar.

Pouco a pouco, a medida que o tempo foi passando, eu fui me acalmando. Conversei com a minha mãe sobre como eu estava me sentindo mal e ela passou mais de 1 hora sentada ao meu lado na cama enquanto eu estava deitado e chorando. Minha mãe é partidária da máxima de "Se você não pensar sobre algo este algo não pode te afetar (ou talvez nem existir)". Não é a toa que eu aprendi a guardar os meus sentimentos ao invés de lidar com eles. Ela começou a falar comigo sobre uma série de assuntos banais (atualizações de Facebook de Fulano, A Fazenda, Masterchef) e é impressionante a habilidade que ela tem de fazer estes assuntos anêmicos virarem conversas longas. Quando eu percebi que ela estava animada e que iria continuar por um bom tempo eu comecei a dar risada. Uma risada que chegou a virar gargalhada e que então me fez doer a barriga. Ela me olhou como se eu estivesse louco e começou a dar risada também. Mães tem um jeito especial de fazer os filhos se sentirem bem.

Conforme o dia foi andando consegui começar a racionalizar os meus sentimentos. Não ignorei eles, aceitei que estivesse me sentindo mal mas comecei a gerenciar eles. Me permiti me sentir mal mas também comecei a me questionar sobre o que eu faria com o que eu estava sentindo. Novamente comecei a pensar na vítima e como eu admirava a força dela. De ter ido a polícia. Como ela estava lidando com as coisas. Novamente me senti um covarde em comparação mas firmei meu compromisso de me igualar a ela um dia. Nem que fosse à metade da coragem dela mas eu iria. Eu iria enfrentar a cadeia, fazer terapia e garantir que aquilo não voltasse a acontecer, tomar os remédios que eu tivesse que tomar. Também firmei minha resolução de melhorar quem eu sou. Me matar é a opção fácil, sem trabalho. Apesar disso, deixo claro que isto é algo que eu disse para mim mesmo, para me forçar a acreditar que existe um futuro e que eu devo trabalhar em direção a ele, não importa quão difícil isto seja.

 Me falaram à um tempo atrás que suicídio é um ato egoísta. Respondi que sim, é. O suicida acredita firmemente que sua situação é irreversível e incorrigível logo se matar é a única opção. Um suicida não pensa nos outros, somente em si porque sua angústia leve a pessoa a pensar somente em si. Esta é a razão pela qual depressão é tão difícil de combater. Ela exige que a pessoa pare de se focar um pouco em si mesmo, e na situação difícil que está vivendo, e comece a olhar ao seu redor e para o seu futuro. Isto é muito difícil quando você está em uma situação difícil. Lembram do começo do post? Que prestamos mais atenção no ruim que no bom? Então, é bem por aí. Por isso que é muito importante que quando uma pessoa se demonstra suicida (tendo pensamentos suicidas) que nunca se diga que isto é covardia ou besteira. Vejam, a pessoa tem a crença firme que provavelmente não vale muita coisa e que sua situação é difícil e sem resolução. Dizer que isto é um ato covarde ou besteira só reafirma a opinião ruim dessa pessoa sobre si mesma. Ao fazer isto, mesmo tendo-se a melhor intenção do mundo, é empurrar esta pessoa cada vez mais para o caminho de se matar.

De qualquer maneira, eu consegui me recuperar da depressão o suficiente para conseguir me segurar emocionalmente. Não é fácil isto. Também decidi usar essa memória, do sofrimento da minha vítima, como um lembrete para a próxima vez que eu me sentir tentado a fazer algo errado. Esta tentação não ocorreu novamente, pelo menos não no mesmo grau de intensidade. Nas vezes em que ocorreu eu consegui, utilizando as ferramentas que eu aprendi na terapia, me controlar. Inclusive, desde que eu me aceitei eu tenho percebido que isto se tornou mais fácil. Admitir para mim mesmo que eu tenho um problema e me aceitar me ajudaram a entender que o que eu sinto. Apesar de o que eu sentir não ser errado, desde que sejam somente fantasias, o que é errado é quando isto se transforma em ação. Logo, pensamentos ruins na cabeça todos temos. Xingar e pensar que você quer matar o babaca que te fechou no trânsito é uma coisa. Perseguir o carro do babaca e realmente matar ele é crime. A mesma analogia se aplica a minha doença. Sentir um atração é uma coisa. Tomar uma ação para satisfazer a atração não é. Esta lição foi difícil de aprender mas foi aprendida. Pena que necessitou eu ter machucado alguém, ter acabado com a minha e ir preso para aprendê-la.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Sumido

Oi!

Sei que ando sumido daqui...me desculpem por isso. Não queria ter negligenciado o blog neste tempo em que estive ausente mas é que houve algo que aconteceu comigo que não consegui mais ter foco em mais nada.

Eu encontrei um lugar online onde pessoas que tem o mesmo problema do que eu se encontram para discutir a sua doença, as maneiras como eles fazem para evitar seus impulsos e apoiar uns aos outros! Este lugar é fantástico, mágico na verdade. Nunca achei que algo assim existisse. Não consigo expressar para vocês a felicidade que é ter encontrado isto. Já criei uma conta lá e me apresentei e contei tudo o que aconteceu comigo (com mais detalhes do que aqui afinal lá é um lugar específico enquanto que aqui não). Fora que lá também não é um lugar público então me sinto mais a vontade para conversar com detalhes sobre o que aconteceu.

Tem sido muito legal. Claro, ao mesmo tempo é um pouco humilhante estar na presença de tantas outras pessoas que enfrentam o mesmo problema mas que não agiram sob seus impulsos. Este fato me deixa um pouco triste porque me faz ver como eu poderia ter gerenciado as coisas melhores na minha vida. Mencionei como eu guardava meus sentimentos dentro do mim até o momento em que isso explodiu. Eles já me comentaram como isto, além da minha desordem de ansiedade, de impulsividade e bipolaridade, facilitaram que eu cometesse um crime. Mas eles ofereceram muito suporte e compaixão! Muitos desejos de que eu seja uma pessoa melhor e estão me apoiando muito! Em contrapartida já consegui falar com várias pessoas que estão depressivas por terem o mesmo problema que eu e que ainda estão "escondidas" do mundo. Falar com elas, dizer que eu entendo e poder oferecer uma palavra de apoio é gratificante.

Então, por isso tenho dado uma esquecida daqui, mas não irei parar de postar. Aqui é um lugar quase que praticamente meu. Um diário mesmo onde posso simplesmente desabafar o que eu sinto fora da visão de outras pessoas. Claro, existem vocês leitores, mas como vocês são mudos (ou manetas, afinal nunca escrevem nada nos comentários) é um exercício quase que solitário. As coisas que são escritas aqui, de modo genérico, são escritas com um pouco mais de refinamento de detalhes lá. Com o plus de que lá existem interações com outras pessoas que dão suas opiniões sobre o que eu penso e sinto.

Outro tópico, e este mais triste.... Ontem, dia 7, fez um ano desde que eu cometi o meu crime. Fiquei muito ruim ontem, muito deprimido. Foi com o suporte do pessoal que eu encontrei online e dos meus pais que eu pude atravessar esse período. Não quero me alongar muito aqui então outra hora falo mais sobre isso se me sentir a vontade. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Atraso 2

Oi,

Outra vez com dois posts no mesmo dia. Não tenho por hábito ter material mental suficiente para escrever dois posts no mesmo dia mas como estou a algum tempo sem escrever acredito que as coisas acabaram por acumular dentro de mim. Claro, tenho tentado manter uma conversa comigo mesmo de maneira que eu não reprima nada dentro de mim entretanto ainda não tenho um bom controle sobre isso e a minha tendência natural é simplesmente guardar as coisas.

Estava falando no último post que passei por um período bem ruim após ter sido obrigado a usar a tornozeleira. Falei bastante sobre como estava me sentindo em relação a isso neste post aqui. Após isso tive uma sessão com a psicóloga na qual eu basicamente contei tudo que estava nesse post que acabei de linkar mais acima. Falei para ela que estava me sentindo muito mal, muito triste e principalmente sem ânimo e sem esperança de que as coisas fossem melhorar. Inclusive descrevi um cenário para ela que, se acontecesse, eu preferia me matar do que ter enfrentar isso. Disse para ela que esta decisão de terminar minha própria vida, neste cenário, não era baseado em sentimentos e sim em lógica, ou seja algo racional. Ela então me falou que sim, esse cenário é válido e possível de acontecer. Que eu tenho um grande problema por ser extremamente racional em conjunto com ser extremamente ansioso já que eu acabo projetando cenários horríveis para o meu futuro e perco foco no presente. Que eu tenho que aprender a levar a minha vida um dia de cada vez e que eu não posso me paralisar no agora por algo que pode vir a acontecer no amanhã. No final da sessão ela também me recomendou ir buscar ajuda com o psiquiatra para tomar alguma medicação que me ajudasse a lidar com a minha depressão já que ela estava muito profunda.

Conforme mencionei no último post isto me assustou muito. Em parte porque significaria tomar mais remédios para a cabeça e eu tenho um certo preconceito com isso. A outra razão que me assustou foi ela ter sugerido eu ir buscar essa opção de medicação. Ela como psicóloga já teve que lidar com outros pacientes que tinham depressão e imagino que muitos não necessitaram de intervenção medicamentosa para superar seus problemas. Infelizmente para determinadas pessoas em determinadas situações essa opção de remédios é necessária. Basicamente, ela me disse que acreditava que isso era o meu caso. Esta declaração me fez perceber o quanto sem ânimo eu estava, o quanto eu estava lentamente desistindo da minha vida no sentido de parar com ela por inteiro. Isto me fez ter ânimo para tentar, mais uma vez, dar a volta por cima do que eu estava passando e brigar por mim mesmo, pela minha saúde mental, sem que eu precisasse de remédios. Com isso pude dizer para ela na sessão seguinte que eu tinha voltado a me sentir melhor mas que estava de vigília de mim mesmo para que, caso eu me sentisse mal novamente, eu buscasse ajuda psiquiátrica em conjunto com remédios.

Essa minha melhora durou poucos dias. No mesmo dia dessa sessão ela me entregou o laudo psicológica dela sobre mim e sobre como a terapia tem sido útil na parte de controle de impulsos. De maneira sucinta ela escreveu o relatório condensando mais de 22 sessões de terapia e mesmo assim evitando de entrar em muitos detalhes sobre algumas partes. Entretanto, apesar de clara, este laudo dela joga uma luz não tão favorável em minha pessoa. Basicamente ela relata que sim, tenho problemas de auto estima e de controle de impulsos além de uma separação grande entre o emocional e o racional que facilita a minha natureza impulsiva. No final, na conclusão, ela menciona que no entanto eu tenho demonstrado a capacidade de questionar minhas próprias crenças e pensamentos de maneira a reconstruí-las de uma maneira melhor e que tenho a possibilidade de me controlar.

Um outro detalhe que ela colocou, erroneamente e que foi corrigido posteriormente, é de que houveram pessoas convidadas a participar da minha terapia e que não quiseram comparecer. Eu havia mencionado para ela que achava que os meus pais necessitam fazer terapia também já que eles estavam, e estão, muito abalados com tudo que tem acontecido. Ela, no entanto, entendeu que eu queria que os meus pais fizessem parte da minha terapia e que eu os havia convidados mas que eles haviam se recusado a participar. Meus pais quando leram essa parte do relatório basicamente surtaram. Eles me perguntaram sucessivamente se a psicóloga havia convidado eles para participar e se eu havia dito que não no nome deles, sem nem mesmo perguntar para eles. Me acusaram de mentir para eles sobre isso e, apesar de ter tentando manter a calma e explicar para eles que devia ser um mal entendido já que nem eu mesmo havia compreendido isso que havia sido escrito, eu acabei perdendo a calma e brigando com eles. Isto me levou a um estado de nervos muito grande e minha ansiedade foi no teto.

Conversei com a psicóloga via WhatsApp e pedi para ela corrigir isso mas fiz esse pedido de uma maneira bem chata e pentelha. Quando estou num acesso de nervoso eu sou uma pessoa beeem chata mesmo, acredito que seja meus ataques de mania devido ao meu espectro bipolar. Nisso, no dia seguinte tive uma reunião com os meus advogados para a gente conversar sobre o relatório tanto do psiquiatra quanto da psicóloga. O do psiquiatra foi ok mas eles caíram de pau no da psicóloga. Tenho que concordar com eles, e já disse isso para a psicóloga, que infelizmente o juiz que solicitou o relatório não será parcial ao ler ele. Apesar da conclusão me redimir, e jogar ao meu favor, o conteúdo em si do relatório faria com que o juiz decretasse minha prisão preventiva novamente. A tornozeleira foi instituída já que existe a possibilidade de que eu venha a fazer algo novamente e que não era justo requisitar a prisão preventiva sendo que eu não havia cometido nenhum crime novo. Entretanto, o relatório da psicóloga é incisivo ao apontar minhas "falhas" e que isto seria interpretado pelo juiz como motivo suficiente, e entregue pela minha própria defesa, para me prender. Seria possível que eu fosse liberado novamente, via habeas corpus, já que a possibilidade de um crime não justifica uma prisão mas isto tomaria novamente alguns meses e eu teria que passar o final de ano (Natal e Ano Novo) na cadeia.

Mais essa notícia na minha cabeça me fez cair ainda mais em uma angústia e desânimo profundos. Me sentia muito mal mesmo e novamente comecei a contemplar pensamentos ruins. Ao conversar sobre tudo isso que passou com a psicóloga na sessão passada falei para ela que, apesar de ter me sentido muito mal novamente, que eu havia conseguido com a ajuda dos meus pais me reerguer novamente. Entretanto, falei que havia percebido como a minha depressão está muito aflorada e que não é necessário muita coisa para me fazer entrar em um estado pior da mesma. Falei então que na próxima consulta com o psiquiatra irei pedir para que ele me receite algo que me ajude com a depressão porque acredito que ficar neste estado tão sensível de ânimo e humor não é bom para mim a longo prazo. Tenho possivelmente ainda alguns anos de apelação da sentença e ficar estes anos desta maneira não é viável.

Basicamente, estes foram os eventos maiores da últimas semanas. Irei tentar voltar a postar mais aqui no blog para evitar que ele fique jogado às moscas. Escrever aqui, mesmo que para leitores anônimos, me faz bem porque me ajuda a tirar de dentro de mim muita coisa que eu penso e sinto. Já percebi que sinto uma facilidade muito maior para expor meus sentimentos de uma maneira escrita do que de uma maneira falada. Acho que isto tem muito a ver com o fato de que aqui, apesar de saber que existem pessoas lendo, não existe uma pessoa me vendo e ouvindo. Ainda sou muito introvertido por natureza e anos e anos de hábito de guardar tudo o que eu sinto me dificultam expor isto de uma maneira mais clara quando existe uma audiência. Aqui existe um distanciamento entre a minha pessoa e seja quem for que esteja lendo. Essa experiência é um tanto esquisita, para ser honesto, mas eu particularmente gosto. Gostaria entretanto que alguém algum dia postasse um comentário, nem que seja para falar mal de mim ou do que escrevo. Por mais estranho que seja, apesar de achar bom o distanciamento natural que existe entre o autor e o leitor gostaria que houvesse uma comunicação bi-direcional aqui, ou seja, houvesse um contato leitor -> autor um dia. :)

domingo, 4 de outubro de 2015

Nada de novo no front...somente lidando com os mesmos problemas de sempre

Nada de novo por estes lados da Terra, e do seu lado?

Hoje foi um dia calmo, dia de ficar em casa aproveitando um pouco os meus pais e basicamente assistindo televisão e jogando um pouco de video-game. Tivemos um almoço light hoje, eu e minha mãe fizemos uma Ceaser Salad com frango e croutons que ficou bem gostosa. Quem diria que eu iria me contentar em almoçar uma "saladinha" e ficar de boa o resto do dia hein? Digo isto porque eu antigamente pesava mais de 160 quilos. Durante a minha "estadia" no sistema penitenciário estadual eu perdi em torno de 30 kilos. Desde que eu sai da cadeia tenho tentando controlar a alimentação em conjunto com academia para não subir mais o peso. Tem funcionado, apesar do peso estar relativamente estável agora eu afinei bastante de corpo e até ganhei alguns músculos. Eu sei que os músculos existem porque eles doem bastante depois da academia :(

De noite, agora a pouco, fiz um hambúrguer caseiro grelhado para comer junto com o meu pai. Ficou bem gostoso também, e dessa maneira é possível escolher a carne usada para fazer o hambúrguer assim como o método de preparo do mesmo. Considerando isso é uma opção bem menos gordurosa que comprar fast-foods em geral ou fritar os hambúrgers de caixinha.

Hoje meu irmão veio aqui em casa para nos visitar. Desde que eu fui preso as coisas tem estado um pouco estremecidas entre a gente, mas principalmente entre ele e os meus pais. Meu irmão sempre foi uma pessoa complicada de se lidar, desinteressado em relação a família e interesseiro. Basicamente, não gosto dele como pessoa e se fosse meu irmão provavelmente não seria seu amigo. Entretanto, ele ainda é família e eu o amo. Por isso, certos sacrifícios tem que ser feitos para que seja mantida a paz geral na melhor maneira possível. Tem dias que isso não é nem um pouco fácil.

Logo após eu ser liberado da cadeia ele veio me visitar aqui em casa e fiquei feliz com isso. Ele não quis perguntar nada em relação ao acontecido e por consequência eu também não entrei no assunto. Não acredito que seja certo da minha parte compartilhar tudo que aconteceu comigo com pessoas que não se sentem confortáveis para ouvir sobre o assunto. Afinal de contas, meu problema é bem pesado e não é fácil nem falar sobre ele e muito menos ouvir sobre ele. Por isto, eu prefiro que as pessoas que escolheram manter contato comigo se manifestarem sobre quererem ouvir sobre o problema ou não. Acredito que tive muita sorte por ter pessoas que escolheram me ajudar e me apoiar desde que eu saí da cadeia.

Para quem se considerava uma pessoa com muitos amigos ficar reduzido a uma contagem de amigos que cabe nos dedos de uma mão é muito estranho. Entretanto, tenho encarado isto de uma maneira positiva. Antes amigos que cabem nos dedos de uma mão do que nenhum amigo. Antes amigos que eu sei que são amigos, parceiros, de verdade do que vários falsos amigos que me mandaram recado dizendo: "Para mim você está morto!".

A amizade destas poucas pessoas com as quais eu posso contar tem sido um dos pilares nos quais eu tento reconstruir a minha vida. Um segundo pilar é a minha família (minha mãe e meu pai, meu padrinho e madrinha, minha tia, alguns dos meus primos, a família da minha madrinha) que com o apoio incondicional que me deram garantiram, mesmo sem saber, que eu não fizesse uma besteira e tirasse minha própria vida. Um terceiro pilar tem sido a ajuda que eu tenho obtido da minha psicóloga e do meu psiquiatra; a ajuda e apoio para que eu possa entender o que eu fiz e impedir que isto volte a acontecer me ajudam a ter esperanças para o meu futuro.

Notem que quando eu falei do meu segundo pilar, a família, não considerei meu irmão como parte dele. Não que ele não seja família, porque ele é; entretanto, ele não faz parte do pilar porque ele não me dá sustentação e apoio nenhum nesse momento. Desde que eu fui preso foi deflagrada uma guerra fria entre meus pais e meu irmão e a sua esposa. A minha cunhada somente colocou os pés na minha casa desde que eu fui preso 2 vezes e somente em ocasiões importantes (o aniversário da minha mãe e o dia dos pais). Meu aniversário, que foi a cerca de um mês, não foi contabilizado como importante logo ela não veio.

Não me importo de ela não vir na minha casa ou de me dar apoio, afinal nunca gostei dela mesmo. Certos males vem para o bem não? Não ter que conviver com ela certamente foi um bem muito bem-vindo. O que me incomoda é que eles também não trazem meu sobrinho (e meu afilhado) aqui em casa. Minha cunhada disse que não quer que ele se corrompa com a minha presença, como se o mero fato de ele estar a minha volta fosse prejudicial para o seu desenvolvimento como pessoa.

A cerca de 2 meses atrás meu irmão veio aqui em casa e eu tive uma conversa com ele, junto com o meu pai, para que pudéssemos por as cartas na mesa. Nesta época minha mãe havia tido uma grande briga com a minha cunhada indiretamente. Na realidade ela estava conversando com o meu irmão por telefone quando ele disse que a razão da minha cunhada não vir mais em casa era devido a ela não se sentir confortável aqui. Inclusive disse que nunca se sentiu confortável aqui, mesmo antes da minha prisão. Minha mãe então, sem hesitar, respondeu para ela, via meu irmão, que se ela não sente a vontade aqui em casa então que não precisava mais aparecer. Pronto! Foi dada a desculpa perfeita para minha cunhada se sentir ofendida e nunca mais aparecer por aqui.

Até onde eu possa entender devido a essa briga meu irmão não veio mais em casa. Ficamos sabendo pela sogra do meu irmão que ele estava se sentindo rejeitado pela família dele e que ele também não se sentia à vontade de vir aqui em casa porque achava que o clima estava muito pesado. Ele inclusive ressaltou este ponto neste conversa que tivemos em conjunto com o nosso pai. Disse para ele que, independentemente do que aconteça, ele ainda faz parte da família e que por mais que esteja pesado o clima ele sempre vai ser bem-vindo na nossa casa. Disse também que mesmo que a esposa dele esteja brigada com a nossa mãe que ele pode vir em casa visitar a gente e que inclusive a gente sentia falta dele. Logo, que mesmo que ele viesse nos finais de semana (afinal, disse que estava cansado do trabalho durante a semana além de ter que tomar conta do meu sobrinho devido a minha cunhada estar grávida) nem que fosse por 10 minutos para dizer um oi.

Nesta conversa, meu pai pediu para ele verificar com a esposa dele para que fosse possível nós (eu, meu pai e minha mãe) buscarmos o meu sobrinho depois da escola um dia na semana de maneira que pudéssemos vê-lo. Meu irmão ficou de perguntar e dar resposta, resposta a qual após 2 meses ainda não sabemos. Meu irmão então me surpreendeu dizendo que tanto ele quanto a minha cunhada queriam marcar uma conversa comigo para que eles pudessem entender o que aconteceu e ouvir o meu lado da história. Novamente, esta conversa está pendente de ser marcada por eles já fazem 2 meses.

Inicialmente foi me dito que somente poderia ser no final de semana porque é quando eles tem tempo livre. Tentei marcar diversas vezes em um sábado ou um domingo e sempre me foi dada uma desculpa. Em um final de semana era porque eles estavam trocando de carro e estavam pesquisando semi-novos. Na outra era porque haviam viajado para a praia e por ai vai. Chegou um ponto, cerca de 1 mês atrás, que parei de tentar marcar uma data para esta conversa. Simplesmente falei para meu irmão que como a iniciativa de ter a conversa foi dele e da esposa dele e que a agenda deles era complicada que seria melhor eles marcarem a conversa quando fosse conveniente. A única coisa que eu ressaltei foi que a minha audiência de instrução é no dia 27 de Outubro e que a conversa deveria acontecer antes desta data, afinal existe um certo risco de ser condenado e encarcerado novamente nesta data (apesar deste risco ser extremamente pequeno).

Até agora meu irmão não entrou em contato para combinar nada. Veio aqui hoje e não mencionou nada disto. Age como se nunca tivesse falado o que falou. Como sempre, meu irmão tenta fugir das suas responsabilidades de qualquer maneira possível. Este sempre foi o padrão de funcionamento dele. Quando confrontado com algo ele tenta fugir e procrastinar ao máximo ter que lidar com um problema. A história de que ele queria conversar comigo em conjunto com a esposa dele pode até ser verdadeira. Entretanto me parece claro que ele sabia que era isso que eu queria ouvir, logo foi o que ele me disse para acalmar os ânimos aqui em casa.

Outra mágoa que eu tenho dele com relação à tudo que tem ocorrido é que até hoje ele não fez o cadastro para obter a carteirinha de visitação da cadeira. Sem esta carteirinha não é possível fazer visitar e nem entregar mantimentos para um preso. Quando eu perguntei para ele, numa outra ocasião, o porque disto ele me respondeu que não tinha tempo de ir ao cartório para fazer o reconhecimento de firma. Disse que não podia faltar ao trabalho para realizar isto. Entretanto já faltou inúmeras vezes para levar meu sobrinho ao médico. Não questiono ele como pai faltar ao trabalho para levar o filho ao médico, inclusive acho ótimo que ele se envolva com o filho e faça parte da educação dele. O que acho interessante é que minha cunhada é funcionária pública, que pode faltar quando bem entende ao trabalho dela mesmo que não apresente atestado médico. Ela nunca falta ao emprego dela para levar meu sobrinho no médico. Então, me pergunto, qual é o motivo real dele não querer fazer a carteirinha de visitação?

Perguntei para ele por que ele teria que faltar ao trabalho para ir ao cartório. Ele me respondeu que o cartório que ele tem assinatura reconhecida fica perto da casa dele e o trabalho dele fica bem longe de casa. Disse que OK, entendia mas perguntei quantas horas de almoço ele tinha. Ele, confuso, me respondeu que duas horas. Então disse a ele que com certeza deveriam haver cartórios perto do trabalho dele e, que, como ele tinha duas horas de almoço seria possível ele ir em um destes cartórios e fazer um reconhecimento de firma por verdadeiro. Neste ponto ele simplesmente ficou me olhando com uma cara de criança pega na mentira... Pedi então para ele que, por favor, fizesse isso. Nem que ele não fosse me visitar porque o horário de visitação é durante horário comercial em dia de semana, mas que somente de saber que ele tinha feito a carteirinha seria uma felicidade muito grande para mim. Ele me prometeu que faria a carteirinha. Até agora nada foi feito.

Por último, o que realmente me deixou magoado com ele foi uma combinação de duas coisas. Um dia, ouvi por acaso uma outra briga que ele e minha mãe estavam tendo por telefone. Meu irmão foi categórico com a minha mãe e disse: "A senhora está preparada para o que vai acontecer em Outubro? Porque seu filho vai para a cadeira e você vai ficar sozinha junto com o pai. Dai vai me encher o saco para pedir que eu leve meus filhos para você cuidar e não se sentir sozinha". Esta declaração do meu irmão me deixou tanto puto quanto triste. Ele acredita que eu realmente irei preso no dia 27 de Outubro. Por isto não marcou a conversa entre a gente, não vê razão porque o problema que sou eu não vai mais estar presente no final do mês. Além disso, usou os próprios filhos, os netos da minha mãe, como chantagem.

Minha mãe respondeu para ele que eu não iria para a cadeia no dia 27 de Outubro, ou pelo menos, não era no que ela acreditava. Que o meu irmão não deveria ficar dizendo estas coisas porque magoavam tanto ela quanto meu pai e eu, caso eu ouvisse (mal sabe ela que eu ouvi e que ela estava certa). Além disto disse que mesmo que eu viesse a ser preso no dia 27 de Outubro que não queria que nenhum dos netos dela viessem aqui por chantagem do meu irmão e da sua esposa. Que se eles não poderiam vir aqui por minha causa, isso significa que meu irmão e a sua esposa não confiam em meu pai e na minha mãe para cuidar das crianças. Logo, mesmo sem eu estar por aqui eles também não deveriam ser confiados para cuidar dos filhos dele. Hoje, quem cuida do meu sobrinho na parte da manhã (ele vai para a escolinha de tarde) é a sogra do meu irmão. Antigamente ela e minha mãe se revezavam na semana para cuidar dele afinal dá muito trabalho. Desde que fui preso a sogra do meu irmão está cuidando dele todos os dias da semana. Imagino que esteja ficando louca já e ainda vai ganhar um neném recém-nascido para ajudar a cuidar além do meu sobrinho que tem 2 anos e meio. Boa sorte!

E para fechar o pacote, a segunda coisa que me deixou magoado com meu irmão foi a data de nascimento do meu novo sobrinho. Ele irá nascer de cesárea e a data escolhida para o seu nascimento foi dia 27 de Outubro. A mesma data da minha audiência. Entendo que como a minha cunhada está entrando no nono mês da gravidez a data tem que ser escolhida de maneira a garantir a sua segurança e do bebê. Entretanto me parece muita ironia (Isn't it ironic? já cantava Alanis Morissette) a escolha  da data. Realmente precisava ser no dia 27 de Outubro?  Meu irmão disse que desta maneira ele poderia aproveitar melhor os 4 dias de licença-paternidade aos quais ele tem direito. Disse que isso não deve ser verdade, afinal dia 27 de Outubro é uma terça-feira e que a licença-paternidade é de 5 dias (Licença Paternidade) logo, o filho dele poderia nascer no dia 26 de Outubro e ele teria a semana inteira de licença-paternidade. Fui respondido pelo silêncio. Logo, gostaria de acreditar que a data de nascimento do filho dele realmente foi marcada no dia 27 por uma questão médica. Infelizmente não acredito porque me parece ser mais uma procrastinação por parte do meu irmão.

Em suma, depois da morte da minha irmã a 2 anos, me tornei filho único.